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Ultraprocessados: A Invasão Silenciosa que Custa Bilhões e Ameaça a Saúde Brasileira

© Claiton Freitas

O cenário alimentar brasileiro tem passado por uma transformação alarmante nas últimas décadas. Desde os anos 1980, o consumo de ultraprocessados mais que dobrou, saltando de 10% para 23% do total de calorias ingeridas no país. Este fenômeno, de alcance global, tem sido objeto de intensos estudos científicos, inclusive com a participação de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), que lideraram uma série de artigos na renomada revista The Lancet. Diante dessa realidade, o programa "Caminhos da Reportagem", da TV Brasil, mergulha fundo no tema, desvendando os riscos e as complexidades desse padrão alimentar.

A Gênese de um Conceito e a Classificação NOVA

O conceito de ultraprocessados, crucial para compreender a epidemia atual de doenças relacionadas à alimentação, nasceu no Brasil, precisamente na Universidade de São Paulo. Foi em 2009 que o pesquisador Carlos Monteiro, do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens), percebeu a necessidade de uma nova abordagem para entender o crescente aumento da obesidade, sobrepeso e doenças crônicas. Sua preocupação se direcionava ao consumo cada vez maior de alimentos com elevado grau de processamento.

Nesse contexto, Monteiro e sua equipe desenvolveram a revolucionária classificação NOVA. Este sistema categoriza os alimentos em quatro grupos distintos: (1) alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas e grãos ensacados; (2) ingredientes culinários processados, a exemplo de azeite e sal; (3) alimentos processados, como milho ou sardinha em lata; e, finalmente, (4) os alimentos e bebidas ultraprocessados, grupo que inclui itens como biscoitos recheados, achocolatados e refrigerantes. Segundo Carlos Monteiro, antes da NOVA, a explicação predominante para o aumento da obesidade era a escolha individual, uma suposta 'falta de força de vontade'. No entanto, ele argumenta que 'não existe uma epidemia de falta de força de vontade', mas sim uma mudança profunda no sistema alimentar que, de forma não saudável, estimula o consumo desses produtos.

O Custo Oculto dos Ultraprocessados: Impactos na Saúde e na Economia

A crescente dependência dos ultraprocessados não é apenas uma questão de saúde individual, mas um problema de saúde pública com repercussões econômicas significativas. Um levantamento recente, conduzido pela Fiocruz Brasília em parceria com o Nupens, revelou que o consumo desses produtos impõe um custo superior a R$ 10 bilhões à saúde e à economia brasileira. Mais alarmante ainda, o pesquisador Eduardo Nilson, da Fiocruz Brasília, aponta que a eliminação do consumo de ultraprocessados poderia evitar até 57 mil mortes anuais no país.

Esses dados servem como um sério alerta e mobilizam cientistas, organizações da sociedade civil e defensores da 'comida de verdade'. O programa 'Caminhos da Reportagem' dedica um episódio a explorar essas consequências sociais e para a saúde, além de apresentar exemplos inspiradores de indivíduos que transformaram seus hábitos alimentares e de uma escola em Águas Lindas de Goiás. Esta instituição, parte do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), reconhecido mundialmente, investe proativamente em alimentação saudável e educação nutricional, demonstrando que a mudança é possível.

Desafios Fiscais e Estratégias Regulatórias para um Futuro Mais Saudável

Apesar da urgência dos riscos associados aos ultraprocessados, a implementação de políticas públicas mais robustas enfrenta desafios, especialmente no âmbito fiscal. A reforma tributária, publicada em dezembro de 2023, mas com transição a partir de 2026, optou por não incluir a maioria dos produtos ultraprocessados no imposto seletivo – uma taxação criada para desestimular o consumo de itens prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente. Apenas as bebidas açucaradas, como os refrigerantes, foram alvo de uma taxa extra.

Kelly Santos, coordenadora-geral de Alimentação e Nutrição na Secretaria de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, explica que o novo desenho fiscal do Brasil prevê alíquotas zero para um conjunto importante de alimentos saudáveis, enquanto os não saudáveis teriam alíquotas maiores. Contudo, para as bebidas açucaradas, ainda é necessária a aprovação de uma lei complementar que defina a alíquota exata, tornando o refrigerante mais caro. Medidas semelhantes, já aplicadas com sucesso em países como México e Chile, servem de inspiração para o Brasil. Além das políticas fiscais, outras estratégias essenciais incluem a educação nutricional e a regulamentação da publicidade. Paula Johns, diretora executiva da ACT Promoção da Saúde, enfatiza o sucesso da imposição de limites na publicidade do cigarro como um precedente, destacando a necessidade de combater as alegações enganosas frequentemente utilizadas pela indústria em produtos ultraprocessados, como a adição de vitaminas em biscoitos recheados.

A batalha contra o consumo excessivo de ultraprocessados é multifacetada e exige uma resposta coordenada de diversos setores da sociedade. Desde a conscientização individual e a educação alimentar até a implementação de políticas fiscais mais assertivas e a regulamentação da publicidade, o caminho é longo, mas essencial para reverter o quadro atual de doenças crônicas e custos crescentes. A visibilidade que programas como 'Caminhos da Reportagem' proporcionam é fundamental para informar a população, estimular o debate e pressionar por um sistema alimentar que priorize a 'comida de verdade' e a saúde dos brasileiros.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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