O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgou, nesta quinta-feira (23), o relatório final sobre a queda do avião da Voepass em Vinhedo (SP), que ceifou a vida de 62 pessoas em agosto de 2024. A revelação dos detalhes técnicos, no entanto, não trouxe consolo aos familiares das vítimas, que tiveram acesso prévio ao documento e expressaram um profundo sentimento de indignação e revolta. As conclusões do órgão, que apontam para fatores que contribuíram para a tragédia, reacenderam a dor e o desejo por justiça, marcando o que muitos consideram o 'início de um ciclo de luta'.
A Dor e a Revolta dos Familiares
Entre os participantes da reunião de apresentação do relatório estava Eduarda Hübner, que perdeu seus pais, Nélvio José Hübner e Gracinda Marina Castelo da Silva, no trágico acidente. Para ela, a leitura do documento trouxe uma angústia avassaladora, consolidando a crença de que a catástrofe 'poderia ter sido evitada'. Eduarda descreveu a sensação como 'bem difícil de digerir', especialmente ao confrontar a possibilidade de que 'várias pessoas coniventes com a forma errada de lidar com tudo' tenham contribuído para o desfecho fatal, contrastando com os princípios de integridade que seus pais sempre cultivaram.
Elizabeth Redivo, mãe da vítima Ana Caroline Redivo, ecoou o sentimento de revolta, direcionando suas críticas à cultura de manutenção da Voepass. Ela descreveu a aeronave como 'sucateada', afirmando que não deveria estar em operação e que sua permanência no ar foi impulsionada por 'ganância, negligência, dinheiro, enfim, inúmeras coisas', além da falta de fiscalização adequada. Elizabeth cobrou veementemente uma atuação mais rigorosa dos órgãos reguladores, salientando que 'não adianta só ter lei, tem de ter fiscalização para essas leis'.
Conclusões Técnicas e a Busca Incessante por Justiça
O relatório final do Cenipa sintetiza as conclusões da exaustiva investigação técnica conduzida pela Força Aérea Brasileira (FAB), cujo objetivo primordial é identificar os fatores que contribuíram para o acidente, com foco na prevenção de futuras ocorrências. A Voepass, por sua vez, informou que se manifestará oportunamente, após ter acesso à íntegra do documento e realizar sua análise.
Fátima Albuquerque, mãe da médica e vítima Arianne Risso, interpretou a divulgação do relatório como o 'fim de um ciclo' de investigação, mas simultaneamente o 'início de um ciclo de luta'. Ela endossou a avaliação do Cenipa sobre uma 'cultura de normalização de desvios' na empresa, afirmando que o documento confirmou falhas da Voepass. Fátima expressou que os familiares estão 'mais revoltados, mais indignados, mas também mais firmes para lutar por justiça', motivados por uma 'obrigação moral e cristã' de usar sua dor para evitar que tragédias semelhantes se repitam. Ela fez um apelo para que a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) seja fortalecida, demandando mais recursos, profissionais e capacitação para intensificar a fiscalização, dado o histórico de infrações da empresa.
A Anac, em nota, comunicou que analisará as recomendações do Cenipa no prazo de até quatro meses, reiterando que as investigações do Centro têm caráter exclusivamente preventivo e não visam atribuir culpa ou responsabilização. Sua finalidade é, de fato, aprimorar o sistema de segurança operacional da aviação civil, uma distinção crucial em relação à busca por responsabilidades criminais que as famílias, como Eduarda Hübner, pretendem perseguir a partir do inquérito da Polícia Federal.
O Rigor da Investigação Técnica do Cenipa
Ao longo de sua investigação minuciosa, o Cenipa realizou dezenas de perícias para reconstruir o voo e compreender a complexa sequência de eventos que culminaram na queda da aeronave. Esse trabalho exaustivo envolveu uma série de análises técnicas aprofundadas, garantindo uma compreensão detalhada dos fatores contribuintes para o desastre.
Entre os procedimentos cruciais executados, destacam-se a análise das duas caixas-pretas – o gravador de voz da cabine (CVR) e o gravador de dados de voo (FDR) – que permitiram uma reconstrução completa do voo, incluindo os comandos dos pilotos e os alertas emitidos pela aeronave. Foram realizados exames detalhados nos motores e nos sistemas críticos de degelo e de proteção contra estol. Além disso, as condições meteorológicas registradas no dia do acidente foram cuidadosamente analisadas, e extensas entrevistas foram conduzidas com pilotos, mecânicos, despachantes e familiares dos tripulantes. A investigação também abrangeu o estudo de mais de 15 mil voos realizados por aeronaves da mesma frota da companhia, testes em simuladores e um voo experimental com outro ATR 72-500, além da revisão exaustiva de registros de manutenção, certificados médicos dos pilotos e outros documentos técnicos. Até mesmo equipamentos de controle de diferentes sistemas e as lâmpadas dos painéis do avião foram analisados para verificar quais estavam acesas no momento final, oferecendo um panorama completo da situação a bordo.
O Legado da Tragédia: Entre a Prevenção e a Justiça
A divulgação do relatório final do Cenipa marca um ponto de virada: o encerramento da investigação técnica, mas o aprofundamento da batalha por justiça para as 62 vítimas do acidente da Voepass. Enquanto o Cenipa cumpre seu papel preventivo ao identificar falhas e propor melhorias para o sistema de aviação, os familiares se mobilizam para que as responsabilidades sejam apuradas em outras esferas. A indignação latente, as denúncias de negligência e a demanda por maior fiscalização ecoam o clamor por um sistema de aviação civil mais seguro e transparente, onde a vida humana prevaleça sobre qualquer desvio ou ganância, transformando a dor dos que ficaram em um motor para a mudança e a prevenção de futuras tragédias.
Fonte: https://g1.globo.com