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Unesco Revela: Matrículas no Ensino Superior Mais que Dobram Globalmente em Duas Décadas, Mas Desafios Persistem

© Marcello Casal JrAgência Brasil

O cenário global do ensino superior testemunhou uma transformação sem precedentes nas últimas duas décadas. De acordo com o primeiro relatório global da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) sobre tendências do ensino superior, divulgado em Paris, o número de estudantes matriculados mundialmente mais que dobrou, um indicador claro da crescente demanda por educação avançada. Contudo, essa expansão vertiginosa é acompanhada por profundas disparidades regionais e desafios persistentes em torno da equidade e da qualidade.

A Expansão Global e Seus Paradoxos

Entre os anos de 2000 e 2024, as matrículas no ensino superior saltaram de 100 milhões para impressionantes 269 milhões de estudantes. Este aumento representa que 43% da população mundial na faixa etária típica do ensino superior (18 a 24 anos) está atualmente engajada em cursos universitários. O estudo da Unesco, que compilou dados de 146 países, destaca uma era de democratização do acesso, mas também aponta para a necessidade urgente de se endereçar as lacunas existentes.

Apesar do crescimento numérico, a taxa de conclusão dos estudos não acompanhou o ritmo das matrículas. A taxa bruta global de graduação, por exemplo, avançou de 22% em 2013 para apenas 27% em 2024, sugerindo gargalos na trajetória educacional dos estudantes. Além disso, a gratuidade do ensino superior público ainda é uma realidade distante para muitos, com apenas um terço dos países estabelecendo essa condição legalmente.

Disparidades Regionais e o Crescimento do Setor Privado

O relatório da Unesco escancara as gritantes diferenças no acesso ao ensino superior ao redor do mundo. Enquanto em regiões como Europa Ocidental e América do Norte, cerca de 80% dos jovens frequentam a universidade, esse percentual despenca para 59% na América Latina e Caribe, 37% nos Estados Árabes, 30% no Sul e no Oeste da Ásia, e atinge um patamar crítico de apenas 9% na África Subsaariana. Tais números ilustram um panorama de oportunidades desiguais que perpetuam ciclos de desvantagem.

Em meio a essas disparidades, as instituições privadas consolidam sua presença, respondendo por um terço das matrículas globais. Na América Latina e no Caribe, essa proporção é ainda maior, alcançando 49% em 2023. Em nações como Brasil, Chile, Coreia do Sul e Japão, quatro em cada cinco estudantes optam por uma instituição privada, o que levanta questões sobre o financiamento e a acessibilidade do ensino público de qualidade.

A Visão da Unesco: Inclusão e Qualidade como Pilares

Khaled El-Enany, diretor-geral da Unesco, ressaltou a importância do ensino superior na construção de sociedades sustentáveis. Ele enfatizou que a crescente demanda global deve ser respondida com modelos inovadores de financiamento que assegurem um ensino superior inclusivo e de alta qualidade para todos, reconhecendo que a expansão nem sempre se traduz em oportunidades equitativas.

Para promover essa visão, a Unesco tem implementado iniciativas cruciais, como a Convenção Global sobre a Educação Superior e o Passaporte de Qualificações. Esses programas visam apoiar os países na criação de ambientes educacionais que ofereçam oportunidades de aprendizagem de alto nível, fundamentais para o desenvolvimento individual e coletivo.

Mobilidade Internacional: Novas Rotas e Desafios

O período analisado pela Unesco também revelou um crescimento exponencial na mobilidade internacional de estudantes, que triplicou de 2,1 milhões em 2000 para quase 7,3 milhões em 2024. No entanto, essa mobilidade, embora expandida, ainda beneficia apenas 3% do total de estudantes globalmente e permanece concentrada, com metade dos estudantes internacionais optando por países da Europa e América do Norte.

Tendências e o Papel da UNESCO na Facilitação

Historicamente, um grupo seleto de sete países – Alemanha, Austrália, Canadá, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia – continua a atrair metade dos estudantes internacionais. Contudo, uma nova tendência emerge com a ascensão de destinos como Turquia e Emirados Árabes Unidos, que registraram um crescimento de pelo menos cinco vezes no número de estudantes estrangeiros na última década, aproximando-se da França em popularidade. O relatório também aponta para uma preferência crescente por estudos intrarregionais, como visto na América Latina e no Caribe, onde a mobilidade subiu de 24% para 43% entre 2000 e 2022, tendo a Argentina como principal destino. Nos Estados Árabes, há uma mudança de foco da Europa Ocidental e América do Norte para países do Golfo e Jordânia.

A Unesco desempenha um papel vital na facilitação dessa mobilidade por meio de sua Convenção Global sobre o Reconhecimento de Qualificações relativas ao Ensino Superior e instrumentos regionais equivalentes, ratificados por 93 países. Esses mecanismos estabelecem padrões universais de garantia da qualidade e sistemas de reconhecimento justos e transparentes, fortalecendo a confiança nos diplomas e qualificações em nível mundial.

Gênero no Ensino Superior: Um Marco de Paridade, Com Exceções

Um dos avanços mais notáveis revelados pelo relatório é a superação da paridade de gênero no ensino superior em escala global. Em 2024, havia 114 mulheres matriculadas para cada 100 homens, um marco significativo. A paridade foi alcançada em todas as regiões, à exceção da África Subsaariana, onde ainda persistem baixas taxas de matrícula e conclusão para mulheres.

Este progresso é especialmente evidente na Ásia Central e no Sul da Ásia, regiões que historicamente enfrentavam desafios consideráveis na inclusão feminina na educação superior. O contínuo trabalho para eliminar as barreiras restantes, especialmente na África Subsaariana, permanece uma prioridade para garantir um acesso verdadeiramente universal.

Em suma, o relatório da Unesco traça um quadro complexo do ensino superior global: um setor em expansão sem precedentes, fundamental para o desenvolvimento sustentável, mas que ainda se debate com profundas desigualdades no acesso, na conclusão e nas oportunidades. A necessidade de modelos de financiamento inovadores, a promoção da mobilidade equitativa e a garantia de qualidade são eixos centrais para que essa vital plataforma educacional possa, de fato, beneficiar a todos os indivíduos e sociedades.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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