À medida que o mundo celebra o Dia Mundial sem Tabaco neste domingo, 31 de maio, uma nova e perigosa frente de batalha emerge no combate ao tabagismo: a proliferação de cigarros eletrônicos, conhecidos como vapes, disfarçados por avanços tecnológicos. Essa camuflagem não apenas amplia o consumo entre os jovens, mas também acende um sinal de alerta para um potencial aumento nos casos de câncer no Brasil, conforme adverte o cirurgião oncológico Luiz Augusto Maltoni, diretor executivo da Fundação do Câncer.
O alerta da Fundação do Câncer ressoa com o tema da campanha da Organização Mundial da Saúde (OMS) para esta data: “Desmascarando o apelo, combatendo a dependência de nicotina e tabaco”. A preocupação central é a forma como a indústria tem transformado esses dispositivos, tornando-os quase irreconhecíveis e, consequentemente, mais sedutores e acessíveis para as novas gerações, comprometendo décadas de progresso na saúde pública.
A Ascensão dos Dispositivos Indetectáveis e a Proibição Ignorada
Apesar da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) manter a proibição da comercialização de vapes no Brasil desde 2009, o uso desses dispositivos cresceu exponencialmente. A facilidade de acesso através de redes sociais, sites e o comércio informal contorna a legislação, permitindo que produtos cheguem aos consumidores sem controle. Dados recentes da Receita Federal ilustram a dimensão do problema: nos primeiros meses de 2024, foram apreendidas mais de 238 mil unidades de cigarros eletrônicos no país, uma média de mais de 4 mil dispositivos por dia.
Muitos desses novos dispositivos operam sem emitir cheiro ou, quando presentes, os aromas são tão sutis que passam despercebidos. Outros liberam apenas vapor, que é frequentemente ignorado, abrindo caminho para o vício precoce. A inovação mais preocupante reside na sua integração a acessórios do cotidiano, como os 'vaporizer hoodies' – moletons com vaporizadores embutidos e bocais escondidos nos cordões do capuz. Essa engenhosidade permite que o usuário inale nicotina de forma discreta em qualquer ambiente, incluindo espaços onde o fumo é proibido, como metrôs e escolas.
Uma Nova Geração de Dependentes e o Retrocesso em Saúde Pública
A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2024 revela uma realidade alarmante: a experimentação de cigarros eletrônicos entre estudantes de 13 a 17 anos quase dobrou em cinco anos, saltando de 16,8% em 2019 para 29,6%. Esse aumento vertiginoso é um sinal claro de que as táticas da indústria do tabaco estão surtindo efeito, gerando uma nova onda de dependentes de nicotina.
Para Luiz Augusto Maltoni, essa estratégia de camuflagem e apelo tecnológico representa um risco real de retrocesso nas políticas de controle do tabaco no Brasil, que até então eram referência mundial na redução da prevalência de fumantes. “O que estamos vendo agora é um risco real de retrocesso, agora embalado em tecnologia e integrado ao cotidiano dos jovens”, afirma Maltoni, criticando a articulação “antiética” da indústria em criar produtos que visam viciar.
Campanha “Spoiler: Ele Não Te Ama” e a Fusão da Dependência
Em resposta a essa ameaça crescente, a Fundação do Câncer intensifica seu Movimento Vape Off com o lançamento da campanha “Spoiler: Ele Não Te Ama”. A iniciativa, veiculada em formato de reportagem, apresenta depoimentos de jovens anônimos que relatam relacionamentos abusivos com os vapes, culminando em adoecimento. O objetivo é desmascarar as promessas enganosas da indústria e alertar a juventude sobre os malefícios reais dos cigarros eletrônicos, incentivando a não experimentação e a cessação para quem já faz uso.
Os novos vapes vão além da simples entrega de nicotina; muitos incorporam tecnologia interativa, com telas sensíveis ao toque, jogos, música e sistemas de troca de mensagens, alinhando-se aos hábitos digitais dos jovens. Alguns até reagem se o usuário para de usar, emitindo alertas e criando um ciclo de estímulo contínuo. Maltoni alerta que esse processo representa uma preocupante fusão entre dependência química e digital, onde o vape deixa de ser apenas um dispositivo para se tornar um acessório interativo, indissociável da rotina.
Consequências na Saúde Jovem e o Impacto no Desenvolvimento Cerebral
Milena Maciel de Carvalho, consultora da Fundação do Câncer na área de tabagismo, enfatiza que o uso de cigarros eletrônicos na adolescência transcende a esfera da escolha individual, tornando-se um grave problema de saúde pública. A exposição à nicotina durante essa fase crítica do desenvolvimento pode impactar significativamente o cérebro dos jovens, afetando áreas essenciais como atenção, aprendizagem, humor e controle de impulsos. Esses impactos podem ter repercussões duradouras na vida adulta, prejudicando o desenvolvimento cognitivo e emocional.
A ameaça dos vapes camuflados não se limita apenas ao potencial de causar câncer; ela engloba uma série de riscos à saúde mental e física dos adolescentes, além de reverter as conquistas históricas do Brasil no controle do tabaco. É um desafio complexo que exige vigilância constante, educação e ações coordenadas de saúde pública para proteger as futuras gerações.