A remota e desafiadora paisagem do Pico Paraná, o ponto mais alto do Sul do Brasil e palco de diversos desaparecimentos e resgates ao longo dos anos, foi o cenário de uma notável história de sobrevivência. Roberto Farias Tomaz, um jovem de 19 anos, enfrentou cinco longos dias perdido na densa mata da região, aplicando um conjunto impressionante de estratégias para se manter vivo. Sua jornada de resiliência, marcada por decisões cruciais e um instinto aguçado, demonstra a força da vontade humana diante de condições extremas. A saga de Roberto, que culminou em um resgate autônomo, oferece insights valiosos sobre a capacidade de adaptação em situações de perigo iminente na natureza selvagem do Pico Paraná.
A desafiadora odisseia no Pico Paraná
A aventura de Roberto Farias Tomaz teve início em 31 de dezembro, quando ele e uma amiga decidiram escalar o Pico Paraná, uma imponente formação rochosa com 1.877 metros de altitude, situada a aproximadamente 90 quilômetros de Curitiba. O objetivo era testemunhar o primeiro nascer do sol de 2024 do topo do estado. A trilha, conhecida por seu nível de dificuldade elevado, exige cerca de 13 horas de caminhada e preparação física e mental consideráveis.
Ao amanhecer do dia 1º de janeiro, após alcançarem o cume, descansarem e encontrarem outros dois grupos de montanhistas, Roberto e sua amiga iniciaram a descida por volta das 6h30, juntamente com um dos grupos. Contudo, em um ponto anterior ao acampamento base, Roberto se separou de seus companheiros. Relatos indicam que ele já havia manifestado mal-estar anteriormente. Momentos depois, o segundo grupo de montanhistas, que vinha logo atrás, passou pelo local onde Roberto havia sido visto pela última vez, mas não o encontrou. O analista jurídico Fabio Sieg Martins, integrante de um dos grupos, notou o desaparecimento do jovem ao chegar ao acampamento e acionou imediatamente as autoridades.
O desaparecimento e as primeiras buscas
Com a notificação, as buscas por Roberto Farias Tomaz foram iniciadas ainda no dia 1º de janeiro, por volta das 13h45. Uma operação de grande escala foi montada, mobilizando recursos diversos para cobrir a vasta e acidentada área do Pico Paraná. Equipes especializadas do Grupo de Operações de Socorro Tático (GOST), voluntários experientes, uma equipe de montanhistas do Corpo de Socorro em Montanha (Cosmo) e corredores de montanha do Clube Paranaense de Montanhismo (CPM) uniram forças na procura. Drones foram utilizados para varrer a área do alto, enquanto técnicas de rapel permitiam o acesso a locais de difícil alcance. Câmeras térmicas também foram empregadas na tentativa de detectar o jovem na densa vegetação, especialmente durante a noite. A complexidade do terreno e a rapidez com que a situação se desenvolveu dificultaram os trabalhos desde o início.
No sábado, 3 de janeiro, diante da persistência do desaparecimento e da apreensão crescente da família, a Polícia Civil do Paraná assumiu a investigação formal do caso, após a abertura de um Boletim de Ocorrência. A família de Roberto, residente em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, forneceu detalhes cruciais. O delegado Glaison Lima Rodrigues foi o responsável por colher depoimentos da amiga que acompanhava Roberto na trilha, de outros montanhistas que o encontraram no percurso e de membros da família, buscando qualquer pista que pudesse levar ao paradeiro do jovem.
Estratégias cruciais para a sobrevivência
Durante os cinco dias em que esteve perdido na mata densa do Pico Paraná, Roberto Farias Tomaz demonstrou uma notável capacidade de improvisação e resiliência, adotando um conjunto de estratégias que se mostraram vitais para sua sobrevivência.
Água, alimento e navegação rudimentar
Uma das primeiras e mais importantes ações de Roberto foi seguir o curso do rio. Essa tática é fundamental em situações de perda na natureza, pois rios e córregos frequentemente levam a áreas mais habitadas ou a outros corpos d’água, além de serem fontes essenciais para hidratação. A água, aliás, foi um desafio constante. Roberto relatou ter enchido sua garrafa com água da cachoeira e de outros meios. Para mitigar o risco de contaminação, ele posicionava a garrafa próximo às pedras onde a água da cachoeira batia, acreditando que a rocha atuaria como um filtro natural. Ele bebia em pequenos goles, ciente dos perigos potenciais da água não tratada.
Em relação à alimentação, o jovem carregava consigo apenas uma ameixa e um pedaço de panetone, que foram suas últimas refeições substanciais. Após consumi-los, ele tomou a consciente decisão de não se alimentar com plantas ou frutos encontrados na mata, por receio de consumir algo venenoso. Essa prudência, embora significasse enfrentar a fome, evitou um risco potencialmente fatal.
Para se orientar e planejar seus períodos de descanso, Roberto utilizou um método engenhoso de localização temporal: o som dos grilos. “Quando eu ouvia os grilos fazendo barulho, eu percebia que estava ficando de noite e procurava um lugar pra descansar”, relembrou. Além disso, ele buscava as pedras mais altas para ter uma visão privilegiada do entorno, tentando identificar caminhos ou pontos de referência na paisagem montanhosa. Sua jornada incluiu um momento de extrema coragem e desespero: ao se deparar com um penhasco e uma cachoeira de mais de 30 metros, sem possibilidade de retorno, e impulsionado pelo pensamento em sua família, ele tomou a arriscada decisão de saltar.
A busca pela salvação e o reencontro
Em um dos momentos de sua provação, Roberto ouviu o som de um helicóptero que procurava por ele. Gritou incessantemente, na esperança de ser notado, mas, infelizmente, seus chamados não foram ouvidos pela equipe de busca. Apesar da desilusão, o jovem não perdeu a esperança e continuou sua árdua caminhada.
A persistência de Roberto foi recompensada na manhã de segunda-feira, 5 de janeiro. Após percorrer cerca de 20 quilômetros pela mata, ele finalmente encontrou uma fazenda na localidade de Cacatu, no município de Antonina. Aliviado, ele pediu um celular emprestado e fez a tão aguardada ligação para sua irmã, comunicando que estava vivo. A notícia trouxe imenso alívio para sua família e para as equipes de resgate, que há dias trabalhavam incansavelmente.
Imediatamente após ser localizado, Roberto foi levado para o Hospital Municipal de Antonina. Lá, ele passou por exames médicos completos e recebeu os procedimentos necessários para reidratação, uma medida crucial após tantos dias sem alimentação adequada e em condições de esforço físico extremo. Sua recuperação foi rápida e, na tarde de terça-feira, 6 de janeiro, Roberto Farias Tomaz recebeu alta hospitalar, podendo finalmente retornar para casa e para o convívio de sua família, encerrando uma das mais impressionantes histórias de sobrevivência na natureza brasileira.
O legado de uma luta pela vida
A extraordinária saga de Roberto Farias Tomaz no Pico Paraná é um testemunho pungente da resiliência humana e da importância da calma e da estratégia em momentos de crise. Sua capacidade de improvisar, de tomar decisões pragmáticas como evitar alimentos desconhecidos e de usar elementos naturais, como o som dos grilos, para sua orientação, foi fundamental. A jornada de Roberto, marcada pela solidão e pelo desafio constante, culminou em um resgate autônomo, reforçando que, mesmo nas condições mais adversas, a vontade de viver e a lembrança dos entes queridos podem ser fontes de força inabaláveis. Este episódio serve como um lembrete vívido dos perigos inerentes às trilhas de montanha e da vital importância do preparo, do planejamento e do instinto de sobrevivência.
Perguntas frequentes
1. Qual a idade de Roberto Farias Tomaz quando se perdeu no Pico Paraná?
Roberto Farias Tomaz tinha 19 anos no momento em que se perdeu na trilha do Pico Paraná.
2. Por quantos dias Roberto esteve perdido e quando foi encontrado?
Roberto esteve perdido por cinco dias, tendo desaparecido em 1º de janeiro e sido encontrado em 5 de janeiro.
3. Quais foram as principais estratégias de sobrevivência adotadas por Roberto?
Ele seguiu o curso do rio, filtrou água usando pedras próximas a cachoeiras, evitou alimentos desconhecidos da mata, usou o som dos grilos para identificar o anoitecer e procurou lugares altos para melhor visibilidade.
4. Onde Roberto foi encontrado e qual distância ele percorreu até encontrar ajuda?
Roberto foi encontrado em uma fazenda na localidade de Cacatu, em Antonina, após percorrer cerca de 20 quilômetros pela mata.
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Fonte: https://g1.globo.com