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Mudanças Climáticas Aceleram Propagação de Doenças Infecciosas no Brasil e no Mundo

© witsawat/ Adobe Stock

As mudanças climáticas representam uma das maiores ameaças à saúde pública global, alterando drasticamente o cenário epidemiológico de diversas enfermidades. No Brasil, essa realidade se manifesta de forma contundente, com um aumento sem precedentes de doenças infecciosas que antes encontravam barreiras naturais. Um exemplo marcante é a dengue, que, historicamente restrita a regiões mais quentes, tem avançado para áreas anteriormente protegidas pelo clima, como o Rio Grande do Sul, evidenciando a reversão de padrões geográficos de transmissão.

A Dengue em Expansão: Da Barreira Natural à Nova Realidade

Até 2007, o Rio Grande do Sul registrava apenas casos de dengue importados, uma consequência direta de seu clima mais ameno, que inibia a proliferação do mosquito *Aedes aegypti*. Contudo, essa proteção natural é coisa do passado. Em 2024, ano de recorde nacional, o estado gaúcho registrou impressionantes 210 mil infecções confirmadas e 281 óbitos, superando, por exemplo, a Bahia, que com uma população três milhões de habitantes maior e temperaturas tradicionalmente elevadas, contabilizou cerca de 163 mil casos e 188 mortes no mesmo período. Esse cenário sublinha uma virada preocupante na distribuição geográfica da doença.

A expansão da dengue não é um fenômeno isolado. Um estudo recente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revela que, entre 2006 e 2024, o número de microrregiões brasileiras com níveis epidêmicos da doença mais do que dobrou, saltando de 110 para 292. Esse aumento abrange 54% do território nacional, enquanto as demais 46% das microrregiões apresentaram incidência de média a baixa, com risco esporádico ou incerto. A pesquisa aponta que a maior frequência de anomalias térmicas – ou seja, temperaturas muito diferentes das habituais por períodos prolongados – é o indicador climático que melhor explica o crescimento das taxas de incidência de dengue a longo prazo.

Impacto Climático no Ciclo de Vida do Mosquito e na Transmissão

Segundo o infectologista Celso Granato, membro da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, a propagação da dengue serve como um dos mais claros exemplos de como as alterações climáticas influenciam as doenças infecciosas. Ele destaca que o processo de expansão da área de transmissão parece ser irreversível: uma vez introduzidos, o vírus e o vetor dificilmente permitirão um retorno a um cenário de transmissão zero. A doença tropical não só alcança regiões mais frias do Brasil, mas também avança globalmente, com surtos históricos nos Estados Unidos e casos autóctones na França e na Itália neste ano.

Granato detalha que todas as fases da vida do *Aedes aegypti* são afetadas pelo clima. Os ovos do mosquito possuem uma casca extremamente resistente, capazes de sobreviver por anos na natureza e eclodir sob condições ideais de umidade e alta temperatura. Adicionalmente, pode ocorrer a transmissão vertical, onde as fêmeas já infectadas passam o vírus para seus ovos, resultando em mosquitos que nascem já carregando a doença. A temperatura também altera o comportamento dos mosquitos adultos: em climas mais quentes, eles precisam bater as asas mais rapidamente, o que demanda mais energia. Para compensar esse gasto, picam mais frequentemente para se alimentar, aumentando exponencialmente as chances de transmissão da dengue.

Novas Fronteiras de Doenças e os Riscos de Eventos Extremos

A dengue não é a única enfermidade cujos padrões são alterados pelo clima. A febre do Oropouche, que até 2023 circulava quase exclusivamente na Região Amazônica, causou mais de 12 mil infecções em 23 estados e no Distrito Federal no último ano. Embora a relação direta com o clima ainda esteja sob investigação, especialistas apontam que as mudanças nos padrões de temperatura e chuvas, somadas à degradação ambiental, podem ter contribuído decisivamente para essa inesperada expansão.

Granato adverte ainda sobre o risco de surtos pós-eventos climáticos extremos, que se tornam cada vez mais frequentes. Secas prolongadas e inundações, fenômenos intensificados pelo El Niño e outras anomalias climáticas, criam condições propícias para a proliferação de diversas doenças. Um exemplo é a leptospirose, que teve um aumento significativo de casos no Rio Grande do Sul após os recentes desastres causados pelas chuvas. A doença é transmitida por uma bactéria presente na urina de ratos, que se espalha durante as enchentes, contaminando a água potável e de higiene.

Além da leptospirose, a mistura de água de enxurradas com esgoto eleva consideravelmente o risco de contaminação por bactérias que causam problemas gastrointestinais e vírus como o da hepatite A. Por outro lado, as secas e incêndios florestais representam um perigo distinto: a destruição de habitats força animais silvestres, especialmente pequenos mamíferos portadores de diversas doenças, a migrarem para áreas urbanas e residenciais, aumentando o risco de transmissão de zoonoses para seres humanos. Esse cenário complexo exige uma abordagem integrada e urgente para a mitigação dos impactos das mudanças climáticas na saúde pública.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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