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Mercúrio em Níveis Alarmantes Ameaça Gestantes e Bebês Munduruku no Pará

© Rovena Rosa/Agência Brasil

Uma crise de saúde pública sem precedentes assola a Terra Indígena Munduruku, localizada na região do Médio Tapajós, no Pará. Pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) revelaram que mulheres gestantes dessa comunidade estão com níveis de mercúrio no corpo quatro vezes e meia acima do limite seguro estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), expondo-se a riscos graves e transmitindo a contaminação para seus filhos ainda no útero.

Resultados Preliminares Revelam Contaminação Generalizada

Os dados alarmantes fazem parte do Estudo Longitudinal de Gestantes e Recém-Nascidos Indígenas Expostos ao Mercúrio na Amazônia, cujos resultados preliminares foram apresentados nesta quarta-feira (3) pelo coordenador da pesquisa, Paulo Basta, durante a Rio Nature & Climate Week. A média de mercúrio encontrada nas gestantes é de 9,1 microgramas do metal por grama de cabelo (µg/g), ultrapassando significativamente o máximo de 2 µg/g considerado seguro pela OMS.

O levantamento, que monitorou 195 mulheres, mostrou que 97% delas apresentam contaminação acima do limite tolerável. Em um caso extremo, uma gestante registrou impressionantes 39,9 µg/g de mercúrio, um índice vinte vezes superior ao patamar de segurança. Essa amplitude nos resultados sublinha a severidade e a abrangência da exposição ao metal pesado na comunidade.

O Impacto Devastador no Desenvolvimento Infantil

A contaminação não se restringe às mães. Das 134 mulheres que já deram à luz, aproximadamente 90% de seus bebês nasceram com mercúrio no organismo, uma vez que o metal é facilmente transferido da mãe para a criança através da placenta. Os recém-nascidos apresentam uma concentração média de 5,8 µg/g, o que representa três vezes o limite seguro. O caso mais crítico entre os bebês atingiu 30,8 µg/g, quinze vezes acima do recomendado.

O pesquisador Paulo Basta adverte que a exposição pré-natal ao mercúrio, uma neurotoxina potente, provoca retardo nos marcos do neurodesenvolvimento. "Uma lesão que ocorre no sistema nervoso central é uma lesão irreversível. As pessoas vão ter que lidar com esse problema para sempre", afirmou Basta. Ele também relata o aumento de crianças nascendo com doenças neurológicas raras, síndromes e anomalias congênitas, todas com suspeita de ligação com a intoxicação por mercúrio, evidenciada pela alta demanda por cadeiras de rodas no distrito sanitário especial indígena Rio Tapajós.

Luta por Reconhecimento e Dados Oficiais

Apesar da gravidade da situação, Paulo Basta destaca a carência de estatísticas oficiais no Brasil sobre a contaminação por mercúrio, já que o sistema de saúde ainda não dispõe de uma ficha de notificação específica para esses casos. No entanto, o estudo já identificou 751 casos confirmados laboratorialmente de indígenas contaminados, sendo 318 no Pará e 378 em Roraima, estes últimos associados ao povo Yanomami, demonstrando que o problema transcende as fronteiras Munduruku.

A divulgação dos primeiros resultados do estudo em 2022 gerou uma forte comoção coletiva entre a comunidade Munduruku. A liderança Alessandra Korap Munduruku descreveu a revolta das mulheres ao descobrir que estavam doentes e a preocupação sobre a interrupção da gravidez ou a contaminação de seus filhos pelo leite materno, ressaltando o desamparo diante da falta de informações prévias.

As Raízes da Crise: Garimpo Ilegal e Dieta Tradicional

A principal causa dessa calamidade ambiental e de saúde é a prática do garimpo ilegal de ouro na região, que utiliza mercúrio para separar o metal precioso da terra. Esse processo contamina os rios, que são a fonte de vida e alimento para as comunidades indígenas. O mercúrio entra no organismo humano principalmente através do consumo de peixes contaminados, que são a base da dieta Munduruku.

Alessandra Munduruku enfatiza a ausência de alternativas alimentares para seu povo. "Nossa principal fonte de alimento é o peixe e não há como fugir disso. Para quem mora na cidade é muito fácil. Vão nas prateleiras, compram frango e carne, tem outras opções", lamenta. A incapacidade de deixar seu território e a dependência dos recursos naturais locais tornam a população Munduruku refém dessa contaminação, com consequências trágicas e irreversíveis para as futuras gerações.

A situação do povo Munduruku é um grave alerta sobre a urgência de políticas eficazes de combate ao garimpo ilegal, de proteção dos territórios indígenas e de assistência à saúde para as comunidades afetadas. A contaminação por mercúrio representa não apenas uma ameaça à saúde individual, mas um atentado contra a cultura, a soberania e o futuro desses povos, exigindo uma resposta imediata e coordenada dos órgãos públicos e da sociedade.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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