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Inclusão Digital na Era da IA: A Urgência do Pensamento Crítico na Educação Brasileira

© Rovena Rosa/Agência Brasil

Com a crescente integração da internet e, em particular, da inteligência artificial (IA) em nosso cotidiano, emerge uma discussão fundamental sobre como a sociedade deve abordar o uso dessas ferramentas, especialmente no ambiente educacional. Não basta simplesmente disponibilizar tecnologias; é imperativo que seu manuseio seja acompanhado por um robusto desenvolvimento do pensamento crítico. Essa é a perspectiva defendida pela educadora Daniela Costa, consultora da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil, que alerta para a necessidade de transformar a inclusão digital em um processo significativo e crítico.

A Evolução da Inclusão Digital para o Pensamento Crítico

Historicamente, o foco da inclusão digital centrava-se predominantemente no acesso. Contudo, a especialista Daniela Costa, que também coordena a pesquisa TIC Educação do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), ressalta que essa visão se tornou insuficiente diante dos desafios e oportunidades da era da IA. A nova premissa é que a inclusão deve ser não apenas digital, mas "significativa e crítica", exigindo uma redefinição dos objetivos educacionais.

Essa abordagem implica ir além da simples entrega de dispositivos ou softwares em escolas. É fundamental que educadores e estudantes compreendam os reais objetivos, os potenciais riscos e as vastas oportunidades inerentes ao uso das tecnologias. A questão central passa a ser como utilizar essas ferramentas de forma consciente e como capacitar os alunos para um engajamento mais crítico com o mundo digital, preparando-os para discernir, analisar e criar em um ambiente cada vez mais permeado pela IA.

Reflexos da Tecnologia: Avanços e Preocupações na Sala de Aula

As discussões sobre o tema foram aprofundadas durante o 4º Encontro de Educadores do Século XXI – Inteligência Artificial e o Futuro da Educação, promovido pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). Na ocasião, Daniela Costa apresentou dados que ilustram tanto o potencial transformador quanto os perigos do uso da tecnologia na educação. Como exemplo dos avanços, destacou um estudo na China onde gravações de alta qualidade, distribuídas a 100 milhões de estudantes rurais, resultaram em uma melhora de 32% nos resultados acadêmicos e uma redução de 38% na desigualdade salarial entre populações urbanas e rurais.

Contrariamente aos benefícios, a especialista alertou para a correlação negativa entre o uso excessivo de tecnologias digitais e o desempenho acadêmico. Mencionou pesquisas que indicam que a mera proximidade de um aparelho celular pode distrair estudantes, impactando negativamente a aprendizagem em 14 países. No contexto brasileiro, essa preocupação já se traduz em legislação: a Lei Federal 15.100, de janeiro de 2025, proíbe o uso de celulares em sala de aula, recreio e intervalos. Dados do Cetic.br de 2026 revelam que 51% das escolas já proíbem completamente a entrada de celulares, embora essa restrição seja mais branda no ensino médio, caindo para 31% dos estabelecimentos.

Novas Dinâmicas de Pesquisa e o Desafio da Alfabetização em IA

A forma como os estudantes buscam informações para trabalhos escolares também passou por uma transformação significativa. Daniela Costa revelou dados da pesquisa Cetic.br que apontam para uma notável preferência por plataformas de vídeo, como YouTube e TikTok, para pesquisas escolares. Impressionantes 89% dos alunos do ensino médio utilizam esses aplicativos, sinalizando uma transição da pesquisa baseada em linguagem verbal para uma abordagem visual. Embora sites de busca (88%), blogs e Wikipédia (72%) e plataformas de IA (70%) ainda sejam relevantes, a preponderância do conteúdo em vídeo sugere uma mudança profunda nos hábitos de estudo.

Apesar da crescente dependência de ferramentas digitais, persiste uma lacuna preocupante na formação dos alunos. Apenas um terço dos estudantes brasileiros afirma ter recebido orientação sobre os potenciais erros e vieses das inteligências artificiais. Essa carência de alfabetização crítica em IA representa um risco, pois os alunos podem não estar preparados para avaliar a confiabilidade e a precisão das informações geradas por essas plataformas, comprometendo a qualidade de sua aprendizagem e pesquisa.

O Papel Central do Professor e a Urgência da Formação Continuada

Em meio a essa complexa paisagem digital, o professor emerge como figura central. Dados de 2024 indicam que a proporção de estudantes que buscam orientação com seus professores sobre o uso de tecnologias digitais aumentou de 44% em 2022 para 56%, evidenciando a confiança e a importância do educador nesse processo. Paradoxalmente, a pesquisa revela uma queda alarmante na participação de professores em programas de formação continuada sobre tecnologias digitais para o ensino e a aprendizagem. Em 2021, 65% dos docentes haviam participado de tais formações; em 2024, esse número caiu para 54%, uma proporção considerada baixa e que atinge apenas metade do corpo docente.

Daniela Costa lamenta essa redução, interpretando-a como um retrocesso após o período da pandemia, quando a urgência da formação tecnológica era inegável. Para a consultora da Unesco, é fundamental que a sociedade brasileira reconheça e se comprometa com o papel insubstituível do professor. A construção de uma sociedade robusta, o desenvolvimento integral dos estudantes e a garantia de uma educação de qualidade são intrinsecamente dependentes do apoio e da valorização contínua dos educadores, especialmente na vanguarda da era da inteligência artificial.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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