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Imposto Seletivo: ‘Imposto do Pecado’ Projeta Arrecadação de R$ 41,9 Bilhões e Transformação na Carga Tributária em 2027

© Valter Campanato/Agência Brasil

O Imposto Seletivo (IS), popularmente conhecido como 'imposto do pecado', um dos pilares da reforma tributária recém-aprovada, está projetado para gerar uma arrecadação de <b>R$ 41,9 bilhões</b> já em 2027. Essa estimativa ambiciosa foi integrada ao Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA), submetido ao Congresso Nacional no último dia 31 de agosto. A medida reflete uma estratégia governamental de reformular a matriz tributária, buscando não apenas novas fontes de receita, mas também um instrumento de regulação social e ambiental.

A natureza do IS reside na tributação de produtos e atividades que, por sua característica, são considerados prejudiciais à saúde humana ou ao meio ambiente. Sua introdução sinaliza uma mudança de paradigma na relação entre consumo, tributação e bem-estar coletivo, com a cobrança efetiva prevista para iniciar em 2027, aguardando, contudo, a devida regulamentação legislativa.

O Escopo da Tributação: Produtos e Atividades Alvo

A abrangência do Imposto Seletivo é vasta, mirando categorias de produtos e serviços cujos impactos negativos são reconhecidos. Entre os itens listados para serem taxados, encontram-se derivados do tabaco, bebidas alcoólicas, e bebidas açucaradas como os refrigerantes. O setor automotivo também será afetado, com a tributação incindindo sobre veículos específicos, conforme suas características e os níveis de emissão de poluentes que produzem.

Além do consumo de bens, atividades econômicas com impacto ambiental significativo, como a extração de bens minerais, também serão contempladas. Uma inovação importante é a inclusão de jogos e apostas, englobando loterias, as populares 'bets' e os fantasy sports, que até então não estavam sujeitos a uma tributação similar à do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). A definição das regras operacionais e alíquotas específicas ainda será detalhada em proposta a ser enviada pelo governo ao Congresso.

Estratégia do Ministério da Fazenda: Entre Arrecadação e Regulação

A implementação do Imposto Seletivo segue uma lógica bifacetada delineada pelo Ministério da Fazenda. Inicialmente, durante o período de transição do novo sistema tributário, a intenção é manter uma carga tributária similar à atualmente aplicada aos produtos. Em um estágio subsequente, as alíquotas do IS poderão ser elevadas com um propósito explícito de regulação, buscando desestimular o consumo de itens considerados nocivos.

Em coletiva para explicar o PLOA de 2027, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, reforçou que a estimativa de arrecadação visa primariamente preservar a carga atual sobre setores já tributados pelo IPI. No que tange às apostas online, um segmento em ascensão, a tributação representa uma novidade. Durigan salientou a necessidade de encontrar um equilíbrio na alíquota, evitando que seja tão irrisória a ponto de ser ineficaz, ou tão elevada que possa incentivar a migração das plataformas para a informalidade.

O Argumento da Saúde Pública e os Custos Sociais Elevados

Um dos principais pilares para justificar a criação do Imposto Seletivo é o alto custo social gerado pelo consumo de produtos e atividades impactados. Estudos e dados do Ministério da Saúde, incluindo uma análise da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), apontam para um impacto financeiro significativo. Em 2019, por exemplo, o consumo de álcool gerou um custo de <b>R$ 18,8 bilhões</b>, dos quais <b>R$ 1,1 bilhão</b> foram despesas federais diretas com internações e procedimentos ambulatoriais no Sistema Único de Saúde (SUS).

As doenças associadas ao tabagismo, por sua vez, representam um ônus ainda maior, estimado em <b>R$ 153,5 bilhões</b> anuais, englobando despesas diretas e perdas de produtividade. Além disso, o SUS arca com cerca de <b>R$ 3 bilhões</b> em custos relacionados a enfermidades provocadas pelo consumo de bebidas ultraprocessadas, como refrigerantes. Esses valores contrastam com a arrecadação anual de <b>R$ 8 bilhões</b> em tributos federais sobre cigarros, evidenciando um desequilíbrio entre o que se arrecada e o que se gasta em consequência do consumo desses produtos.

Integração à Reforma Tributária e Impacto nas Contas Públicas

O Imposto Seletivo é parte integrante do novo sistema de tributação sobre o consumo, que foi aprovado pelo Congresso em 2023 e está em fase de regulamentação. Sua implementação gradual se estenderá até 2033, marcando uma transição significativa para o modelo fiscal brasileiro. A partir de 2027, o IS coexistirá com a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), que assumirá o papel de substituir tributos como o Programa de Integração Social (PIS), a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e parte do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).

Em conjunto, as previsões para 2027 indicam que a CBS deverá arrecadar <b>R$ 636 bilhões</b>. Somados aos <b>R$ 41,9 bilhões</b> estimados para o Imposto Seletivo, os dois novos tributos totalizarão uma receita de <b>R$ 677,9 bilhões</b> para o próximo ano. Essa robusta projeção de receitas é considerada crucial para assegurar o equilíbrio das contas públicas e a estabilidade fiscal durante a complexa fase de transição para o novo modelo tributário.

Debate e Perspectivas: Setores Afetados versus Objetivos Governamentais

A introdução e a potencial elevação das alíquotas do Imposto Seletivo geram um intenso debate com os setores produtivos atingidos. Representantes das indústrias de cigarros, bebidas alcoólicas e outros produtos argumentam que esses segmentos já enfrentam uma carga tributária elevada no Brasil. Eles alertam que aumentos adicionais podem comprimir as margens de lucro, resultando em repasses aos preços finais, o que, por sua vez, poderia impactar o poder de compra do consumidor.

Além disso, há preocupações com os riscos de demissões nas cadeias produtivas e um possível crescimento do mercado ilegal, caso a tributação seja percebida como excessiva. O governo, no entanto, mantém sua posição, sustentando que o Imposto Seletivo não possui apenas uma função arrecadatória. A finalidade regulatória, de desestimular o consumo de produtos que geram impactos negativos na saúde e no meio ambiente, é um pilar central da justificativa para a existência do 'imposto do pecado'.

O Imposto Seletivo, portanto, emerge como uma ferramenta multifuncional no arcabouço da reforma tributária. Mais do que uma nova fonte de receita para as contas públicas, ele se posiciona como um mecanismo de intervenção social e ambiental, buscando moldar hábitos de consumo e mitigar os custos indiretos associados a certos bens e atividades. A expectativa é que, com sua plena implementação, o IS contribua significativamente para a sustentabilidade fiscal e para o avanço das políticas de saúde pública no país, mesmo diante do inevitável escrutínio e debate dos setores afetados.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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