Um grave acidente marcou um ensaio no palco do renomado Teatro Guaíra, em Curitiba, no início de novembro, quando uma farpa de madeira se soltou da estrutura e atravessou a perna de uma criança de 9 anos. O incidente, que resultou em uma cirurgia de emergência para o menino, levantou discussões sobre a segurança em grandes espaços culturais. A família da vítima buscou amparo legal, enquanto o Teatro Guaíra e a escola de dança envolvida apresentaram versões distintas sobre as circunstâncias que levaram ao ocorrido. Este episódio no Teatro Guaíra ressalta a complexidade na gestão de segurança em ambientes de alta circulação e espetáculos.
O incidente e as consequências imediatas
O episódio chocou a comunidade artística e a população de Curitiba. Pedro, um garoto de 9 anos apaixonado por dança desde 2021, preparava-se para uma apresentação quando, durante um movimento de deslizamento no palco, um pedaço de madeira se desprendeu e o atingiu. A farpa, que media 23 centímetros, penetrou na perna do menino, atravessando músculos e uma camada de gordura.
Detalhes do ferimento e atendimento
A mãe de Pedro, Patricia Marcondes, havia deixado o filho no teatro para a apresentação geral. Horas depois, recebeu a ligação informando sobre o acidente. O socorro foi prontamente acionado, e uma profissional de saúde realizou a avaliação inicial. Em seguida, a criança foi levada ao Hospital Pequeno Príncipe. No hospital, a verdadeira extensão do ferimento foi revelada: a farpa estava completamente inserida na perna de Pedro, exigindo uma intervenção cirúrgica imediata para sua remoção.
Apesar da gravidade do ferimento e da necessidade de cirurgia, Pedro não sofreu sequelas permanentes, e seu tratamento pós-operatório consistiu em curativos e administração de antibióticos. A mãe relatou que os médicos consideraram que o menino “teve sorte”, pois a farpa poderia ter atingido artérias ou órgãos vitais, o que, em outras partes do corpo, poderia ter sido fatal. “Se pega mais para trás um pouquinho, poderia ter pegado uma artéria, poderia ter dado hemorragia. Se pega um pescoço, matava na hora. Nas costas, perfurava pulmão, perfurava um rim, coração”, explicou o cirurgião à mãe, enfatizando o risco que Pedro correu.
Reações, investigações e controvérsias
Dois dias após o acidente, a família de Pedro foi contatada pela gestão do Teatro Guaíra, que expressou seu lamento pelo ocorrido. No entanto, a mãe decidiu buscar assistência legal e procurou o advogado Marluz Lacerda Dalledone. Uma notícia-crime foi apresentada ao Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (NUCRIA), resultando na instauração de um inquérito policial. Pedro foi ouvido por meio de escuta especializada de uma psicóloga e submetido a exame de corpo de delito, procedimentos padrão em casos envolvendo menores vítimas de crimes.
Ação legal e posicionamento do teatro
Em resposta ao ocorrido, a administração do Teatro Guaíra emitiu um comunicado. Nele, afirmava que o menino recebeu atendimento imediato e que a empresa contratada para serviços de urgência e emergência do teatro foi acionada. Contudo, o teatro declarou que a equipe médica foi dispensada pelos responsáveis no local. A nota também assegurou que os profissionais do Teatro Guaíra mantiveram contato com a família, acompanhando o estado de saúde do aluno e oferecendo a assistência necessária. A administração reiterou que a manutenção do palco é realizada de forma periódica e contínua e que, após o acidente, um procedimento preliminar de verificação foi instaurado para buscar eventuais melhorias em procedimentos e segurança.
Um ponto central na controvérsia levantada foi a questão do linóleo, um piso técnico amplamente utilizado em palcos e estúdios por oferecer deslizamento controlado e resistência ao desgaste, prevenindo acidentes. O Teatro Guaíra afirmou que o material estava devidamente instalado no palco e foi utilizado por outras escolas de dança em dias anteriores. Contudo, na noite anterior à apresentação de Pedro, o coordenador da escola de dança solicitou a retirada do linóleo, por “decisão cênica própria”.
A escola de dança, por sua vez, também se manifestou sobre o incidente e o posicionamento do teatro. Ela confirmou que o teatro realmente disponibiliza o linóleo, mas ressaltou que seu uso é opcional e que há inclusive recomendações para não utilizá-lo em casos de sapateado – que era justamente o estilo da apresentação de Pedro – a fim de preservar o material. A escola argumentou que, na ausência de proibição expressa, entendia-se que a estrutura do palco estava apta a receber espetáculos de dança sem o linóleo, algo que a instituição havia realizado por mais de dez anos em diversos outros teatros, sem jamais ter enfrentado qualquer situação semelhante.
O impacto emocional e o futuro do palco
O acidente teve um profundo impacto emocional em Pedro. O menino, que se preparava para a apresentação desde meados do ano, ficou profundamente triste e frustrado por não poder participar do evento. A mãe descreveu a angústia do filho nos primeiros dias, com sua principal preocupação sendo a recuperação para futuras apresentações. “Quando ele recebeu a alta, ele perguntou: ‘Mas eu vou poder dançar?’, e até o médico falou: ‘Calma, Pedro, vamos ver como que vai ser'”, relata a mãe, emocionada.
Frustração da criança e histórico do Guaíra
O Teatro Guaíra é um dos maiores e mais importantes espaços culturais do Brasil, um ícone de Curitiba que completou 140 anos em 2024. Reconhecido como “Melhor Casa de Espetáculos do Brasil” no Prêmio Cenym, o “Oscar das artes cênicas”, o teatro recebe anualmente renomados artistas. Em 2022, o espaço passou por uma restauração na estrutura dos bastidores e do palco do Guairão, auditório onde ocorreu o acidente, com um investimento de R$ 600 mil. Além disso, em setembro de 2024, o governo do estado anunciou um repasse de R$ 50 milhões para uma série de melhorias que contemplam a reforma, revitalização, adequação e modernização de toda a estrutura do complexo para 2026. O Teatro Guaíra também possui regras internas rigorosas para a preservação de sua estrutura, como a proibição do uso de grampos, pregos e parafusos, visando justamente evitar incidentes. A administração ressaltou que o palco passou por uma reforma completa há cerca de três anos e meio, sendo considerado novo em comparação com outros espaços da mesma natureza, e que não há registro recente de acidentes semelhantes.
Perspectivas futuras
O acidente no Teatro Guaíra expõe a complexidade das responsabilidades e a necessidade de comunicação clara entre os gestores de espaços culturais e as companhias que os utilizam. Enquanto o inquérito policial avança, com o depoimento da criança e a realização de exames, o incidente serve como um alerta para a importância de revisitar e aprimorar protocolos de segurança em palcos, mesmo nos mais renomados e bem-mantidos. O teatro, por sua vez, já instaurou um procedimento preliminar de verificação, buscando identificar possíveis melhorias em seus procedimentos. A expectativa é que as investigações possam esclarecer todos os pontos e contribuir para que tais acidentes sejam evitados no futuro, garantindo a segurança de todos os artistas e espectadores que frequentam um dos mais importantes palcos do país.
Perguntas frequentes
O que exatamente aconteceu no Teatro Guaíra?
Um pedaço de madeira do palco se soltou durante um ensaio e atravessou a perna de uma criança de 9 anos, exigindo cirurgia de emergência.
Qual a extensão do ferimento da criança?
A farpa, medindo 23 centímetros, penetrou na perna do menino, atravessando músculos e uma camada de gordura. Felizmente, não houve sequelas permanentes.
O teatro ou a escola de dança são responsáveis pelo ocorrido?
A responsabilidade é objeto de um inquérito policial em andamento. O teatro afirma que um piso protetor (linóleo) estava disponível e foi retirado pela escola de dança, enquanto a escola alega que o uso do linóleo é opcional e que o palco deveria ser seguro sem ele para o tipo de dança praticada.
Quais medidas estão sendo tomadas após o acidente?
A família da criança abriu uma notícia-crime, resultando em um inquérito policial. O Teatro Guaíra instaurou um procedimento preliminar de verificação para buscar melhorias em seus procedimentos e segurança, além de ter previsto um grande projeto de revitalização e modernização para 2026.
Para mais detalhes sobre a segurança em espaços culturais e as investigações em andamento, acompanhe nossas próximas atualizações.
Fonte: https://g1.globo.com