A economia brasileira registrou um crescimento de 0,7% na transição de abril para maio, um dado que sinaliza uma retomada após períodos de estagnação. Este desempenho positivo foi fortemente influenciado pela robustez do consumo das famílias, conforme revelado pelo Monitor do PIB, estudo mensal elaborado pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV) e divulgado nesta segunda-feira. No entanto, o relatório também aponta para fragilidades estruturais e sinais de arrefecimento em uma análise mais aprofundada do cenário econômico.
Desempenho Recente e a Dinâmica Mensal
A variação de 0,7% em maio marcou uma importante recuperação, sucedendo um recuo de 0,1% em abril e um cenário de estabilidade em março. No acumulado do trimestre móvel encerrado em maio, o crescimento alcançou 1,9% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Olhando para um horizonte mais amplo, a variação positiva acumulada nos 12 meses até maio foi de 1,7%. A trajetória mensal do ano tem sido oscilante, com o crescimento recente quebrando uma sequência de resultados menos expressivos:
Variação Mensal do PIB
<ul><li>Maio: +0,7%</li><li>Abril: -0,1%</li><li>Março: 0%</li><li>Fevereiro: +0,5%</li><li>Janeiro: +0,7%</li></ul>
O Pilar do Consumo das Famílias
O grande motor por trás do avanço econômico em maio foi o consumo das famílias, que registrou um crescimento notável de 3,3% no trimestre móvel até maio. Este patamar representa o maior desempenho desde o quarto trimestre de 2024, quando o aumento foi de 4%. A análise da FGV detalha que mais de 60% desse crescimento foi impulsionado pelo consumo de serviços e de bens duráveis, evidenciando uma recomposição da demanda interna. A economista Juliana Trece, coordenadora da pesquisa, enfatiza o papel preponderante desse componente para o resultado geral.
Sinais de Alerta: A Análise Crítica da FGV
Apesar do crescimento pontual, o estudo da FGV aponta para importantes 'fragilidades' na composição do PIB brasileiro. O indicador de 12 meses, que oferece uma perspectiva de longo prazo, sugere uma desaceleração. A variação de 1,7% em maio está abaixo dos 3% registrados em março deste ano e dos 3,8% observados em maio do ano passado, indicando uma perda de fôlego geral na economia.
Juliana Trece destaca que, embora a agropecuária apresente crescimento após uma série de retrações e os serviços mostrem um desempenho um pouco acima da média, a estabilidade da indústria indica uma clara perda de dinamismo no setor. A concentração do crescimento no consumo familiar revela uma dependência preocupante desse fator, especialmente em um contexto de quedas nas exportações e nos investimentos. "Conclui-se que, embora a economia siga em crescimento, há alguns sinais importantes de arrefecimento que começam a aparecer no resultado", avalia a economista, alertando para a necessidade de uma base mais ampla de recuperação.
Dinâmica do Comércio Exterior e Investimentos
A análise setorial do Monitor do PIB revela comportamentos distintos. As exportações cresceram 4,3%, o menor índice observado desde o segundo trimestre de 2025, sendo a indústria extrativa mineral a principal responsável por essa redução no ritmo de crescimento. Em contrapartida, as importações demonstraram robustez, expandindo 8,9%, marcando o terceiro trimestre móvel consecutivo de alta.
No que tange aos investimentos, medidos pela Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que abrange gastos com máquinas, equipamentos e construção, houve uma expansão de 2% no trimestre móvel. Esta é a segunda expansão após quatro trimestres móveis de recuo. A taxa de investimento da economia em maio foi estimada em 18,6% do PIB, a segunda maior do ano, superada apenas por fevereiro (19,2%). Em valores correntes, o PIB acumulado até maio é estimado em R$ 5,466 trilhões.
Panorama Ampliado e Projeções Futuras
O Monitor do PIB da FGV é um dos diversos termômetros da atividade econômica nacional. Outro indicador relevante, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), divulgado em 17 de maio, também apontou expansão, registrando 0,1% na passagem de abril para maio e 1,4% nos 12 meses. O resultado oficial do Produto Interno Bruto, divulgado trimestralmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontou um crescimento de 1,1% no primeiro trimestre de 2026. A próxima divulgação do IBGE, referente ao segundo trimestre de 2026, está prevista para 1º de setembro.
As expectativas para o crescimento econômico ao longo do ano divergem ligeiramente entre as instituições. O relatório Focus desta semana, pesquisa do Banco Central com instituições financeiras, projeta um avanço de 1,99% para a economia brasileira em 2026. Já a estimativa do Ministério da Fazenda é um pouco mais otimista, prevendo uma variação de 2,3% para o mesmo período.
Em suma, o cenário econômico brasileiro em maio demonstra uma recuperação animadora impulsionada pelo consumo familiar. No entanto, a análise detalhada da FGV acende um alerta para a persistência de fragilidades em setores-chave e a desaceleração da economia em um horizonte mais amplo, sugerindo que a sustentabilidade do crescimento dependerá de uma base mais diversificada e de investimentos robustos, além da demanda interna.