O universo dos vinhos é vasto e repleto de surpresas, desafiando constantemente as percepções comuns e convidando à exploração de novos sabores e texturas. Longe dos rótulos mais conhecidos, existem verdadeiras joias capazes de ampliar o conhecimento sobre essa bebida milenar, que há milhares de anos encanta a humanidade. Estes vinhos surpreendentes provam que a inovação e a tradição podem coexistir, resultando em experiências sensoriais únicas e memoráveis. Prepare-se para descobrir exemplares que subvertem as expectativas, desde um Malbec que se veste de branco até um Prosecco que não borbulha, passando por espumantes tintos vibrantes e vinhos de sobremesa que nascem de um fungo nobre. Cada garrafa é um convite para desbravar um novo território no mapa da enologia.
Espumante tinto Messias Extra Brut Tinto: um tinto com bolhas
Quando se fala em espumantes, a imagem que geralmente surge é a de um vinho branco ou rosé, repleto de bolhas finas e refrescantes. No entanto, o mundo dos vinhos reserva uma curiosa e deliciosa exceção: o espumante tinto. Este estilo, embora menos comum, oferece uma experiência completamente diferente e igualmente sofisticada, combinando a efervescência característica com a estrutura e os sabores de um vinho tinto.
Um português vibrante
Um notável exemplo é o Messias Extra Brut Tinto, um espumante português que desafia as convenções. Elaborado com as uvas Baga e Touriga Nacional, castas emblemáticas de Portugal, ele exibe uma cor vermelho intenso e profundo. Seu processo de produção segue o método tradicional, ou clássico, o mesmo utilizado para a elaboração do Champagne, onde a segunda fermentação ocorre diretamente na garrafa. Este método confere ao vinho uma complexidade notável e uma perlage persistente e elegante.
Ao provar, o Messias Extra Brut Tinto revela aromas complexos, com notas de frutos secos e em compota, complementados por toques herbáceos que adicionam frescor. Em boca, é um vinho fresco, saboroso e com uma estrutura que o diferencia dos espumantes brancos. Sua versatilidade gastronômica é um dos grandes atrativos; além de ser excelente para ser apreciado sozinho, ele harmoniza perfeitamente com pratos robustos, como o clássico leitão à Bairrada e outras carnes assadas. Recomenda-se servi-lo entre 8 e 10ºC para realçar suas qualidades.
Malbec branco Alma Inquieta White Malbec: a reinvenção de um clássico
O Malbec é, sem dúvida, uma das uvas tintas mais celebradas do mundo, especialmente associada aos encorpados e frutados vinhos argentinos. No entanto, a inovação na viticultura não para, e a ideia de um Malbec branco pode parecer, à primeira vista, um paradoxo. Contudo, essa surpresa enológica é uma realidade que tem conquistado paladares curiosos.
Uma nova roupagem para uma uva icônica
A renomada vinícola argentina Alfredo Roca surpreendeu o mercado ao lançar o Alma Inquieta White Malbec, um vinho que desafia o senso comum e demonstra a versatilidade da uva Malbec. Para atingir a coloração branca, a técnica empregada é a vinificação “blanc de noirs”, ou seja, a uva tinta é prensada suavemente e o mosto (suco da uva) é separado rapidamente das cascas, antes que a pigmentação vermelha possa ser transferida para o líquido. Esse processo meticuloso permite que a uva Malbec expresse seu caráter de uma forma completamente nova.
O resultado é um vinho inusitado, que apresenta uma grande expressão aromática, dominada por notas frutadas, em especial cítricas e de framboesa. Na boca, o Alma Inquieta White Malbec é bem refrescante, com excelente acidez e um bom corpo, que o diferencia de muitos vinhos brancos convencionais. Diferente do Malbec tinto, que é o parceiro ideal para carnes grelhadas e assadas, a versão branca se harmoniza maravilhosamente com pratos mais leves, como peixes, frutos do mar, carnes brancas, massas com vegetais e saladas. É uma prova de que a tradição pode ser reinventada sem perder a essência da qualidade.
Vinho laranja 20.000 Léguas: a redescoberta de um método ancestral
Nos últimos anos, uma categoria de vinhos tem ganhado destaque no cenário internacional: o vinho laranja. Apesar do nome peculiar, que evoca uma cor vibrante e incomum para vinhos, trata-se de um estilo que resgata técnicas milenares de vinificação, oferecendo uma ponte entre o vinho branco e o tinto.
A magia do contato com as cascas
O vinho laranja não é feito de laranjas, mas sim de uvas brancas que são vinificadas de uma maneira pouco convencional. Ao contrário dos vinhos brancos tradicionais, onde o mosto é separado das cascas logo após a prensagem, no vinho laranja, o mosto fermenta em contato prolongado com as cascas das uvas brancas. Esse período pode variar de algumas semanas a vários meses e é responsável por conferir ao vinho uma cor que pode ir do dourado intenso ao âmbar e, por vezes, laranja, além de uma estrutura e complexidade aromática únicas.
A técnica, originária de regiões como a Geórgia há milhares de anos, confere ao vinho laranja características que o aproximam dos tintos, como a presença de taninos. O 20.000 Léguas, um vinho laranja produzido na Espanha, é um excelente exemplo dessa categoria. Ele se destaca pelos aromas complexos de frutas tropicais, avelã, maçã e casca de laranja. Em boca, é equilibrado, com taninos aveludados e uma boa acidez, que o tornam versátil para harmonizações. Muitos vinhos laranjas, inclusive, são produzidos de forma vegana e orgânica, como o 20.000 Léguas, agregando um valor extra para consumidores conscientes. Sua estrutura permite que harmonize com pratos asiáticos, indianos e pratos mais complexos da culinária mediterrânea.
Vinho de sobremesa Château Doisy-Daëne Sauternes: a nobreza da podridão
Na região de Bordeaux, na França, existe um estilo de vinho doce que é mundialmente aclamado e reverenciado por sua complexidade e longevidade. Estes vinhos são produzidos de uma forma bastante peculiar, envolvendo a ação de um fungo que, sob condições climáticas muito específicas, transforma as uvas e concentra seus açúcares e sabores.
O milagre da Botrytis cinérea
Os vinhos de Sauternes, uma sub-região de Bordeaux, são famosos por serem elaborados a partir de uvas brancas (Sémillon, Sauvignon Blanc e Muscadelle) que foram afetadas pelo fungo Botrytis cinérea, conhecido como “podridão nobre”. Este fungo se desenvolve apenas em condições climáticas muito específicas: manhãs úmidas, que favorecem seu crescimento, seguidas por tardes secas e ensolaradas, que permitem a evaporação da água das uvas. A Botrytis perfura a pele da uva, fazendo com que a água evapore, concentrando os açúcares, ácidos e compostos aromáticos.
O resultado são vinhos de sobremesa de extraordinária doçura, acidez e complexidade, com aromas que variam de frutas brancas maduras e damasco a mel, especiarias e notas minerais. O Château Doisy-Daëne Sauternes, assinado pelo renomado enólogo Denis Dubourdieu, é um ícone desse estilo. Ele se destaca por seus aromas de frutas brancas maduras, toques de mel e notas minerais, revelando-se incrivelmente equilibrado entre doçura e acidez. Estes vinhos são verdadeiras obras de arte líquidas e podem ser extremamente longevos, muitas vezes atingindo valores de quatro ou cinco dígitos no mercado, tornando-se objetos de desejo para colecionadores e apreciadores de vinhos finos. São perfeitos para acompanhar foie gras, queijos azuis ou sobremesas à base de frutas.
Prosecco sem bolhas Voga Prosecco DOC Tranquilo: a face silenciosa de um ícone
Prosecco virou um sinônimo quase universal para espumante italiano, remetendo imediatamente à imagem de celebrações e brindes efervescentes. No entanto, essa associação, embora comum, esconde uma faceta menos conhecida da Denominação de Origem Controlada (DOC) Prosecco: a existência de vinhos tranquilos, ou seja, sem as tradicionais bolhas.
O Prosecco em sua forma mais serena
A verdade é que “Prosecco” não se refere apenas a um estilo de vinho, mas principalmente a uma região de produção, localizada no nordeste da Itália, e à uva Glera, que é a base para a maioria dos vinhos produzidos ali. Embora a maior parte da produção seja de espumantes (Spumante) e frisantes (Frizzante), a região também permite a elaboração de vinhos brancos tranquilos, que levam o nome Prosecco DOC Tranquilo. Estes vinhos representam a forma mais pura da expressão da uva Glera, sem a adição do processo de segunda fermentação que gera as bolhas.
A vinícola Voga surpreendeu ao lançar um Prosecco sem bolhas, o Voga Prosecco DOC Tranquilo. Este é um vinho branco elaborado exclusivamente com a uva Glera, na própria região do Prosecco. Apresenta-se como um vinho leve, fresco e aromático, com notas de frutas brancas e toques florais. Sua delicadeza o torna perfeito para ser apreciado sozinho, como aperitivo, ou em harmonização com antepastos leves, petiscos e pratos à base de peixes e frutos do mar, oferecendo uma alternativa elegante e inesperada para quem busca a identidade do Prosecco, mas em uma versão serena.
A jornada pelo inesperado
A diversidade do mundo do vinho é um convite constante à curiosidade e à exploração. Os exemplos de vinhos surpreendentes, como o espumante tinto, o Malbec branco, o vinho laranja, os vinhos de Botrytis e o Prosecco tranquilo, demonstram que as fronteiras do sabor e da produção são muito mais amplas do que a maioria imagina. Cada um desses rótulos conta uma história de inovação, tradição redescoberta ou a simples celebração da versatilidade da uva e do terroir. Aventure-se a provar esses vinhos e permita-se expandir seu paladar, descobrindo novas camadas de complexidade e prazer que o universo enológico tem a oferecer.
FAQ
Qual a principal diferença entre um Malbec tinto e um Malbec branco?
A principal diferença reside no processo de vinificação. Enquanto o Malbec tinto fermenta com as cascas da uva, que conferem a cor e os taninos, o Malbec branco é vinificado sem contato com as cascas, semelhante a um vinho branco tradicional, resultando em um vinho de cor clara e com um perfil aromático e gustativo mais leve e fresco, sem os taninos característicos dos tintos.
Como é feito o vinho laranja e o que o torna único?
O vinho laranja é feito de uvas brancas, mas o mosto fermenta em contato prolongado com as cascas da uva (assim como se faz com os vinhos tintos). Esse contato estendido confere ao vinho sua coloração âmbar ou alaranjada, além de uma estrutura com taninos, aromas complexos de frutas secas, nozes e especiarias, e uma textura mais encorpada, características incomuns em vinhos brancos convencionais.
Todo Prosecco é espumante?
Não, nem todo Prosecco é espumante. Embora a maioria dos vinhos da região de Prosecco, na Itália, seja produzida na versão espumante (Spumante) ou frisante (Frizzante), a Denominação de Origem Controlada (DOC) também permite a produção de vinhos tranquilos (sem bolhas), conhecidos como Prosecco DOC Tranquilo. Estes são vinhos brancos secos, feitos com a uva Glera, que expressam a pureza da casta sem a efervescência.
Explore a diversidade enológica e descubra novos sabores em sua próxima degustação!
Fonte: https://g1.globo.com