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China Expande Infraestrutura Financeira na África para Reduzir Dependência do Dólar

© Valter Campanato/Agência Brasil/Arquivo

A China tem intensificado seus esforços para construir uma infraestrutura financeira robusta no continente africano, visando diminuir a hegemonia do dólar americano nas transações comerciais. Essa estratégia busca facilitar o comércio de bens e serviços utilizando moedas locais africanas e o yuan chinês (também conhecido como renminbi), sinalizando uma ambição de reconfigurar os fluxos financeiros globais. Embora a 'desdolarização' ainda seja um objetivo distante, mesmo para as autoridades em Pequim, as ações recentes indicam uma progressão estratégica para o futuro.

Movimentos Estratégicos na África: Facilitação de Pagamentos e Comércio

Um marco significativo dessa iniciativa ocorreu no final de junho, quando o Banco Central da China autorizou pagamentos diretos em yuan por meio do Standard Bank, o maior grupo bancário da África, com sede na África do Sul. Essa parceria estratégica com o Banco Industrial e Comercial da China (ICBC) é fundamental para a viabilização do comércio entre o continente africano e a China. O Standard Bank, que opera em 21 países africanos, declarou que essa colaboração os posiciona de forma única para lidar com o renminbi, permitindo que empresas realizem e recebam pagamentos na moeda chinesa para liquidações comerciais.

Além da facilitação de pagamentos, Pequim reforçou os laços comerciais em 1º de maio, ao decidir isentar taxas de importação para produtos africanos. Essa medida é projetada para impulsionar ainda mais o fluxo comercial entre o gigante asiático e a África, que já é o principal parceiro comercial do continente. Entre 2000 e 2024, o comércio bilateral registrou um crescimento médio anual de 14%, conforme dados da Administração Geral de Alfândegas (GAC) da China, indicando a crescente interdependência econômica.

A Ascensão Lenta do Yuan e a Realidade da Desdolarização

Apesar dos avanços na infraestrutura, o uso do yuan no continente africano permanece minoritário. O analista geopolítico Marco Fernandes, do Conselho Popular do Brics, descreve o progresso do yuan como 'tímido', mas ressalta a importância da infraestrutura que a China está construindo para viabilizar o comércio sem o dólar. Ele metaforicamente compara a estratégia chinesa à construção de 'trilhos para o trem bala chinês passar no futuro', indicando uma visão de longo prazo.

Globalmente, o yuan é atualmente a quinta moeda mais utilizada no comércio, respondendo por aproximadamente 8,5% das transações. Embora seja um valor modesto em comparação com a dimensão da economia mundial, Fernandes destaca um crescimento notável em relação a três, cinco ou dez anos atrás. A hegemonia do dólar persiste, especialmente nas negociações de commodities como energia e alimentos, que ainda são predominantemente cotadas na moeda americana, o que sublinha o desafio da 'desdolarização'.

O Dilema Chinês e as Ambições do BRICS

A agenda de 'desdolarização' da economia mundial tem sido um ponto central para o Brics, o grupo de países do Sul Global que inclui Brasil, China, Índia e África do Sul, entre outros. A percepção é que o uso do dólar como moeda de reserva internacional concede vantagens econômicas e políticas significativas aos Estados Unidos. No entanto, o editor da revista Wenhua Zongheng International, Marco Fernandes, aponta que a China não busca uma desdolarização imediata por razões pragmáticas, como suas vastas reservas em dólar e a necessidade de manter o yuan em um nível que preserve a competitividade de suas exportações.

Outro fator limitante é a relutância da China em abrir sua conta de capitais, uma medida considerada crucial para a internacionalização plena do yuan. Essa cautela visa proteger o sistema financeiro chinês das turbulências e da especulação do mercado global. Fernandes enfatiza que uma rápida desvalorização do dólar poderia causar prejuízos consideráveis tanto para o Estado quanto para as empresas chinesas, defendendo um processo de 'desdolarização' que seja lento, gradual e seguro.

Propostas para uma Nova Arquitetura Monetária Global

Diante da complexidade de substituir a hegemonia do dólar, surgem propostas alternativas. O economista brasileiro Paulo Nogueira Batista Jr., ex-vice-presidente do Banco do Brics, sugeriu em junho deste ano a criação de uma nova moeda de reserva para o comércio internacional. Ele reconhece a expansão da rede de pagamentos do Banco Popular da China (PBOC), que já envolve mais de 40 bancos centrais e amplia o papel do yuan, mas argumenta que a substituição do dólar pelo yuan, por si só, não atende aos interesses da economia chinesa no momento.

Em vez disso, Nogueira propõe o desenvolvimento de uma moeda própria para o comércio global, lastreada em uma 'cesta' de moedas dos países do Sul Global. Essa unidade de conta seria criada por um grupo de nações do Brics e outros países emergentes, com a possibilidade de, em um estágio futuro, ser convertida em uma nova moeda mantendo os mesmos pesos de cada componente. Para Marco Fernandes, a 'desdolarização' é essencial para promover maior justiça na economia mundial e reduzir o poder político concentrado nos EUA.

Perspectivas Futuras: Um Cenário de Transformação Gradual

As iniciativas da China na África refletem uma estratégia multifacetada que combina investimento em infraestrutura financeira, incentivos comerciais e uma visão de longo prazo para a internacionalização de sua moeda. Contudo, a transição para um sistema monetário global menos centrado no dólar é um processo complexo e gradual, que enfrenta tanto resistências externas quanto cautelas internas por parte de Pequim.

Enquanto o yuan continua a ganhar terreno, as discussões sobre novas moedas de reserva ou cestas de moedas regionais indicam uma busca por maior equilíbrio e multipolaridade no sistema financeiro internacional. O caminho para uma 'desdolarização' completa é longo e sinuoso, mas as bases para uma ordem monetária mais diversificada estão sendo gradualmente estabelecidas, com a África emergindo como um campo de testes crucial para essa transformação.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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