PUBLICIDADE

Anúncio não encontrado.

Brasil: Um Ano Fora do Mapa da Fome, mas Milhões Ainda Enfrentam o Desafio da Insegurança Alimentar

© Divulgação/Prefeitura de Goiânia

Há cerca de um ano, o Brasil celebrou um marco significativo ao deixar o Mapa da Fome das Nações Unidas, uma conquista que reflete a redução da população em risco de subnutrição para menos de 2,5%. Este avanço histórico, o segundo do tipo para o país, trouxe consigo a esperança de um futuro com mais segurança alimentar para todos os cidadãos. No entanto, a realidade pós-saída do mapa revela um cenário de desafios persistentes, com milhões de brasileiros ainda vivendo sob a sombra da insegurança alimentar grave, indicando que a luta pela erradicação completa da fome está longe de ser finalizada.

Um Marco Conquistado e Desafios Remanescentes

Apesar da importante vitória de ter sido retirado do Mapa da Fome — um reconhecimento de que menos de 2,5% da população enfrenta subnutrição crônica — o Brasil ainda contabiliza aproximadamente 6,5 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave. Este patamar, o menor da série histórica, é resultado de um esforço concentrado, mas especialistas alertam que a manutenção e o aprimoramento desse resultado dependem da implementação contínua de políticas públicas intersetoriais. Atualmente, a segurança alimentar, definida como o acesso regular e suficiente a alimentos saudáveis e de qualidade, é garantida a cerca de 77% da população brasileira, evidenciando uma melhoria substancial, mas também a persistência de lacunas significativas.

A Complexidade da Insegurança Alimentar: Além da Oferta

O combate à insegurança alimentar vai muito além da simples oferta de alimentos, exigindo a construção e a manutenção de uma estrutura social e econômica robusta. O pesquisador Lucas de Almeida Moura, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Combate à Fome da USP, enfatiza que a eficácia reside na intersetorialidade das políticas públicas. Ele argumenta que o acesso adequado à alimentação está intrinsecamente ligado a fatores como a garantia de renda mínima, educação de qualidade, acesso à água potável, saneamento básico, segurança pública e oportunidades de emprego. Moura é o criador do Índice Multidimensional de Insegurança Alimentar (MUFII), uma ferramenta inovadora que avalia a fome a partir de 12 indicadores de Desenvolvimento Sustentável.

Radiografia da Fome: Desigualdades Regionais no Brasil

Os primeiros resultados do MUFII, divulgados em janeiro e publicados na revista *Sustainability*, ofereceram um panorama detalhado da situação brasileira entre 2018 e 2022. A pesquisa revelou uma piora no cenário nacional em 2022 e destacou profundas desigualdades regionais. Enquanto Santa Catarina apresentou os menores valores médios de insegurança alimentar multidimensional, estados das regiões Norte e Nordeste, como Maranhão, Acre e Amazonas, registraram os maiores índices, com grande parte desses estados ultrapassando 50% de sua população em insegurança alimentar. Os pesquisadores planejam atualizar o índice para os anos subsequentes a 2022, fornecendo dados cruciais para o direcionamento de políticas.

Estratégias Governamentais e os Pilares da Redução da Fome

A secretária Extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), Valéria Burity, sublinha que o objetivo governamental é assegurar o direito à alimentação adequada e saudável para toda a população brasileira, uma meta de longo prazo com impacto transformador. Uma das ações mais impactantes na redução dos índices foi o Plano Brasil Sem Fome, que articula medidas de política econômica e de proteção social. Este plano abrangeu desde o fomento à agricultura familiar e o reajuste da alimentação escolar até o apoio a cozinhas comunitárias e a criação de meios para garantir proteção social, trabalho, renda e acesso a alimentos. Atualmente, a prioridade é a inclusão das populações ainda em risco em políticas públicas, fortalecendo a colaboração com estados e municípios.

A Visão Acadêmica: Reduzindo Desigualdades e Fortalecendo Redes

A professora Semíramis Domene, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretora do Instituto Fome Zero (IFZ), aponta três movimentos cruciais para a recente queda nos patamares de fome. O primeiro e fundamental pilar foi a implementação de mecanismos para diminuir a desigualdade. Ao considerar que o acúmulo de riqueza e a desigualdade são as raízes da fome, o combate a esses fenômenos torna-se o caminho para superá-la. Políticas de emprego e renda foram decisivas nesse processo, resultando no menor índice de desemprego em 13 anos e em reajustes do salário mínimo superiores a 6% a partir de 2022. O segundo movimento essencial foi o fortalecimento das políticas públicas de proteção social, que complementam os esforços de redução das desigualdades e garantem uma rede de apoio para os mais vulneráveis.

A saída do Brasil do Mapa da Fome representa uma vitória coletiva e a validação de políticas públicas integradas, mas serve também como um lembrete vívido dos desafios que ainda precisam ser superados. Com milhões de pessoas ainda em situação de insegurança alimentar grave, o compromisso com a erradicação da fome exige vigilância constante, inovação e a continuidade de ações que promovam equidade, acesso universal a serviços básicos e oportunidades econômicas. A jornada para garantir que cada brasileiro tenha o direito fundamental a uma alimentação adequada e saudável é um caminho que demanda esforços permanentes e aprimoramento contínuo de todas as esferas da sociedade e do governo.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Leia mais

PUBLICIDADE