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Brasil perde mais de 400 mil hectares de água em um ano

Seca afeta rios no Amazonas  • Mauro Neto/ Governo do Amazonas

O Brasil enfrenta um cenário alarmante de retração hídrica, tendo perdido uma extensão significativa de sua superfície de água no último ano. Dados recentes revelam que mais de 400 mil hectares foram perdidos, uma área que supera o dobro da cidade de São Paulo. Este declínio é parte de uma tendência de longo prazo, com uma perda acumulada superior a 2 milhões de hectares de água natural desde meados da década de 1980. A crise hídrica atingiu um ponto crítico, especialmente na região metropolitana de São Paulo, onde os principais mananciais operam com menos de um terço de sua capacidade. A compreensão deste fenômeno e suas complexas causas é fundamental para desenvolver estratégias eficazes de mitigação e adaptação diante das crescentes pressões das mudanças climáticas.

O declínio hídrico alarmante no Brasil

A paisagem aquática brasileira está em constante transformação, e não para melhor. O país registrou a perda chocante de 400 mil hectares de superfície de água em apenas um ano, um território colossal equivalente a mais de duas vezes a área total da cidade de São Paulo. Este dado recente se insere em um contexto de perdas ainda maiores, totalizando mais de 2 milhões de hectares de corpos d’água naturais desaparecidos desde 1985, conforme indicado por levantamentos especializados. A magnitude dessas perdas ressalta a urgência da situação, com implicações profundas para ecossistemas, comunidades e a economia nacional.

A dimensão da perda e seus reflexos metropolitanos

A retração hídrica não é um fenômeno distante, mas uma realidade que já afeta diretamente os grandes centros urbanos. Na região metropolitana de São Paulo, o fim do ano tem sido particularmente desafiador. Os mananciais responsáveis por abastecer a Grande São Paulo operam com apenas 26,42% de sua capacidade total, segundo informações do sistema integrado metropolitano. Reservatórios cruciais, como o Cantareira e o Alto Tietê, encontram-se no limite do nível de atenção, uma situação que levou as autoridades estaduais a implementar medidas drásticas, como a redução da pressão na rede de distribuição de água durante o período noturno, das 19h às 5h.

As projeções futuras para o abastecimento são igualmente preocupantes. Um boletim meteorológico recente aponta que, com a persistência das chuvas abaixo da média devido à influência do fenômeno La Niña, o Sistema Cantareira pode atingir apenas 18% de seu volume útil em março de 2026. Este cenário contrasta drasticamente com o mesmo período em 2025, quando o sistema operava próximo de 60% de sua capacidade. A combinação de secas prolongadas e padrões de chuva irregulares ameaça a segurança hídrica de milhões de pessoas e evidencia a vulnerabilidade da infraestrutura existente diante das alterações climáticas.

As complexas causas da crise climática

A crise hídrica no Brasil não é um evento isolado, mas o reflexo de um panorama global de alterações climáticas e fenômenos atmosféricos complexos. O aquecimento global desempenha um papel central, intensificando a frequência e a severidade de eventos extremos que impactam diretamente a disponibilidade de água.

Aquecimento global, fenômenos climáticos e seus impactos diretos

Observatórios europeus confirmam que o mundo ultrapassou a barreira de 1,5°C de aquecimento médio em 2024, um marco que tem intensificado as chamadas “secas relâmpago”. Estes fenômenos são caracterizados por uma evaporação súbita e intensa, que reduz a umidade do solo em velocidade recorde, conforme alertas emitidos por centros de monitoramento de desastres naturais. O calor extremo tem repercussões diretas na saúde pública. Em São Paulo, por exemplo, os atendimentos ambulatoriais por insolação registraram um aumento de 27% em 2025, totalizando 1.052 casos entre janeiro e outubro, um indicativo claro dos efeitos do clima nas populações urbanas.

A transição entre o fenômeno El Niño severo no ano anterior e a instalação do La Niña no final de 2025 agravou ainda mais a crise hídrica e térmica. Especialistas em clima, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, apontam que enquanto o El Niño elevou as temperaturas a níveis recordes, o La Niña atual traz consigo chuvas irregulares para a região Sudeste, dificultando a recuperação de sistemas de abastecimento vitais como o Cantareira.

Além disso, a seca severa avançou por diversas regiões do país. Um monitor de secas da agência reguladora de águas confirma que o Vale do Paraíba e Minas Gerais foram atingidos, e o Rio de Janeiro viu 100% de seu território sob seca. Em Pernambuco, no Sertão, há relatos preocupantes de mortandade animal, um testemunho da intensidade da estiagem extrema. Em escala nacional, desastres impulsionados pela seca causaram prejuízos superiores a R$ 700 bilhões na última década, de acordo com dados de uma confederação de municípios, evidenciando o gigantesco impacto econômico das mudanças climáticas.

O caminho para a resiliência: adaptação e soluções

Diante de um cenário tão desafiador, a busca por soluções e a adaptação a uma nova realidade climática tornam-se imperativas. Especialistas apontam para a necessidade de uma mudança de paradigma na gestão dos recursos hídricos e do uso do solo.

A visão de especialistas e o papel da restauração territorial

Um especialista em engenharia florestal ressalta que o Brasil se encontra em um período de adaptação a um “novo cenário” de imprevisibilidade climática. Fenômenos que antes ocorriam com baixa frequência e intensidade, hoje se tornaram mais comuns e severos. Décadas de emissões de gases de efeito estufa alteraram a dinâmica das massas de ar e das correntes marítimas, resultando nos padrões climáticos extremos que observamos atualmente.

Para este especialista, a preservação da água está intrinsecamente ligada ao uso da terra. Ele enfatiza que o setor privado deve expandir sua visão “além de seus muros” para garantir sua própria sustentabilidade. “Não adianta ter uma empresa que cuida da água dentro do seu perímetro se a água nem chega lá porque a bacia hidrográfica não foi cuidada”, alerta. Ele complementa que, sem água, energia e um clima adequado, a economia não funciona, destacando a interligação vital entre esses elementos.

O especialista também explica que a impermeabilização do solo e o desmatamento criam um ciclo vicioso de perdas. Ao remover a vegetação ou cobrir grandes áreas com concreto, o solo perde sua capacidade natural de absorver água. Isso resulta em menos reservas durante períodos de escassez e, paradoxalmente, em inundações mais severas durante chuvas intensas, pois a água escorre rapidamente, levando consigo a fertilidade do solo.

Apesar da gravidade do quadro das mudanças climáticas, há um otimismo em relação à crescente conscientização da sociedade brasileira. A realização de uma importante conferência climática global no Brasil trouxe um “letramento climático” sem precedentes, amadurecendo o debate público sobre o tema. Essa proximidade com discussões globais acelerou processos em instituições públicas e privadas, que agora dispõem de mais ferramentas para a tomada de decisões.

O especialista conclui que o protagonismo do Brasil na agenda ambiental, que deve se estender nos próximos anos, é a chave para transformar diagnósticos em ações concretas. Ele defende que a natureza pode ser a maior aliada do país se houver um investimento preventivo na restauração do território. Esse é o caminho para reduzir riscos e assegurar a estabilidade para a economia e a sociedade como um todo.

Conclusão

A retração hídrica no Brasil, evidenciada pela perda de mais de 400 mil hectares de água em um ano, é um sintoma alarmante de uma crise climática multifacetada. A escassez em grandes centros urbanos, as projeções sombrias para reservatórios vitais e os impactos socioeconômicos e na saúde pública sublinham a urgência da situação. Este cenário é impulsionado pelo aquecimento global e pela interação complexa de fenômenos como El Niño e La Niña, intensificando secas e eventos extremos. No entanto, a crescente conscientização e o potencial de liderança do Brasil na agenda ambiental oferecem uma rota para a resiliência. A adoção de práticas sustentáveis, a restauração territorial e a colaboração entre todos os setores são essenciais para construir um futuro mais seguro e estável.

Perguntas frequentes (FAQ)

1. Qual a extensão da perda de água no Brasil no último ano?
O Brasil perdeu mais de 400 mil hectares de superfície de água apenas no último ano, uma área que equivale a mais de duas vezes o tamanho da cidade de São Paulo. Desde 1985, a perda acumulada de água natural ultrapassa 2 milhões de hectares.

2. Como o aquecimento global e os fenômenos El Niño/La Niña influenciam a crise hídrica?
O aquecimento global, com o mundo ultrapassando a barreira de 1,5°C de aquecimento médio, intensifica as “secas relâmpago” e a evaporação súbita. A transição entre um El Niño severo (que elevou temperaturas) e o La Niña (que causa chuvas irregulares no Sudeste) agrava a crise, dificultando a recuperação dos reservatórios e contribuindo para a escassez.

3. Que medidas podem ser tomadas para enfrentar a escassez de água e os eventos climáticos extremos?
Especialistas sugerem a adaptação a um novo cenário de imprevisibilidade, com foco na preservação da água ligada ao uso sustentável da terra. Isso inclui a restauração territorial, o combate ao desmatamento e à impermeabilização do solo, além do engajamento do setor privado e a implementação de políticas públicas baseadas no “letramento climático”.

4. Quais são os principais impactos da crise hídrica na saúde e na economia do Brasil?
Na saúde, o calor extremo resultou em um aumento de 27% nos atendimentos por insolação em São Paulo em 2025. Economicamente, desastres impulsionados pela estiagem causaram prejuízos superiores a R$ 700 bilhões na última década, afetando diversos setores e populações em regiões como o Vale do Paraíba, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Pernambuco.

Acompanhe as últimas notícias sobre a crise hídrica e descubra como você pode contribuir para a sustentabilidade dos recursos hídricos em sua comunidade.

Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br

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