Há séculos, os nomes Borgonha e Bordeaux ressoam como pilares inabaláveis do universo vinícola, sinônimos de excelência e inspiração para produtores em todo o globo. Ambas as regiões francesas estabeleceram padrões de qualidade e estilo que continuam a influenciar a enologia mundial. Contudo, por trás da reputação compartilhada, residem distinções fundamentais que moldam o caráter único de seus vinhos. Compreender essas diferenças é a chave para apreciar a profundidade e a diversidade que cada território oferece.
As Variedades de Uva: Monovarietais vs. Assemblages
A primeira e talvez mais marcante divergência entre os vinhos da Borgonha e de Bordeaux reside nas uvas predominantes e na filosofia de sua utilização. Na Borgonha, a supremacia é da casta tinta Pinot Noir e da branca Chardonnay. É neste terroir ancestral que, para muitos especialistas, essas variedades alcançam sua máxima expressão em complexidade e fineza, resultando em rótulos quase exclusivamente monovarietais, ou seja, elaborados a partir de uma única casta.
Bordeaux, por outro lado, é o berço de vinhos tintos que são, em sua vasta maioria, assemblages. As uvas tintas que reinam são a Cabernet Sauvignon e a Merlot, frequentemente complementadas pela Cabernet Franc, Petit Verdot e Malbec. Essa prática de mesclar diferentes variedades confere aos vinhos bordaleses uma complexidade e equilíbrio distintos. Conforme explica Amandine Castillon, representante da vinícola Moillard, da Borgonha, a influência da safra é, inclusive, mais acentuada na Borgonha devido à produção monovarietal e de pequenas parcelas, enquanto em Bordeaux a possibilidade de mesclar uvas de diversas áreas minimiza tal impacto.
O Equilíbrio entre Brancos e Tintos: Perfis de Produção
A proporção entre vinhos brancos e tintos representa outra significativa distinção. A Borgonha é notavelmente famosa por seus vinhos brancos, que constituem 61% de sua produção. Dentre eles, os Chablis, originários da sub-região de mesmo nome, destacam-se pela elegância e mineralidade incomparáveis. Os tintos de Pinot Noir, que correspondem a 27% da produção total, também gozam de grande prestígio pela sua intrínseca complexidade. Os 12% restantes incluem os Crémant, espumantes de altíssima qualidade que, embora rivalizem com os Champagnes, são geralmente oferecidos a preços mais acessíveis.
Em contraste, Bordeaux é inegavelmente o reino dos vinhos tintos, que compõem impressionantes 90% de sua produção total. Cultivados nas margens Esquerda e Direita dos rios Gironde, Garona e Dordonha, esses vinhos são aclamados por seu corpo e suculência. Embora os brancos representem uma fatia menor, alguns dos mais aclamados e sofisticados do mundo também nascem ali. A região é ainda a pátria dos raros e prestigiadíssimos Sauternes, vinhos de sobremesa de doçura e complexidade singulares.
Filosofias de Classificação: Terroir da Borgonha vs. Châteaux de Bordeaux
Uma das divergências mais intrínsecas reside nas filosofias de classificação de qualidade. Na Borgonha, o sistema é profundamente enraizado no conceito de terroir, classificando primariamente os vinhedos em hierarquias que refletem a qualidade e a singularidade de suas parcelas. Em ordem decrescente de importância, essa classificação se divide em Grand Cru, Premier Cru, Village e Regional, indicando que a procedência exata da uva é o fator primordial para a qualidade do vinho. Este enfoque reflete uma tradição de pequenos produtores e uma ênfase na expressão do solo e do clima.
Bordeaux adota uma abordagem diferente, onde a classificação de 1855, estabelecida sob o imperador Napoleão III, foca na reputação e prestígio dos produtores, ou châteaux. Os vinhos bordaleses são categorizados em Premier Cru, Second Cru, Troisième Cru, Quatrième Cru e Cinquième Cru, um sistema que valoriza o histórico e a consistência das propriedades vinícolas. Isso implica que, ao escolher um vinho da Borgonha, o consumidor se orienta principalmente pela parcela do vinhedo, enquanto em Bordeaux, a atenção se volta para o nome e o prestígio da vinícola produtora.
Em suma, Borgonha e Bordeaux, embora ambos faróis da excelência vinícola francesa, trilham caminhos distintos em suas uvas, estilos de vinho e sistemas de classificação. Essas distinções não apenas enriquecem o panorama global do vinho, mas também oferecem aos apreciadores uma jornada fascinante de descoberta e apreciação das nuances que tornam cada garrafa uma expressão única de sua origem.
Fonte: https://g1.globo.com