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Blocos de Saúde Mental Transformam o Carnaval Carioca em Palco de Inclusão e Cidadania

© Loucura Suburbana/ Pâmela Perez

O Carnaval do Rio de Janeiro é mundialmente conhecido por sua exuberância, criatividade e alegria contagiante. Contudo, a maior festa popular do país transcende a folia e se estabelece também como um espaço vibrante de inclusão e conscientização. Nesse cenário, os blocos de saúde mental emergem como protagonistas, quebrando estigmas e promovendo o encontro entre usuários da rede de atenção psicossocial, seus familiares, profissionais da saúde e a comunidade, ocupando as ruas e reforçando a mensagem de que a saúde mental se faz em liberdade e na coletividade.

A Folia como Expressão de Cuidado e Pertencimento

A iniciativa dos blocos de saúde mental, conforme destaca a Secretaria Municipal de Saúde (SMS-Rio), sublinha o compromisso do carnaval com o combate a preconceitos e estigmas associados ao sofrimento psíquico. Para o superintendente de Saúde Mental da secretaria, Hugo Fernandes, essas agremiações reafirmam o direito inalienável de pessoas em sofrimento psíquico à cultura, à alegria e à plena cidadania. Mais do que meros desfiles, esses blocos configuram-se como espaços vitais de expressão, pertencimento e cuidado, encarnando uma política de atenção pautada na liberdade.

Ao longo do ano, os coletivos carnavalescos oferecem uma série de atividades contínuas, como oficinas de música, confecção de fantasias, artesanato e percussão. Tais iniciativas não apenas estimulam a expressão artística de seus participantes, mas também promovem um diálogo essencial com a sociedade sobre temas cruciais como inclusão social, respeito às diferenças e a importância de um cuidado coletivo, demonstrando que a celebração pode ser uma poderosa ferramenta terapêutica e de reintegração.

Zona Mental: A Voz da Periferia no Combate ao Preconceito

Dentre as diversas agremiações, o <b>Zona Mental</b> se destaca como um dos mais recentes e significativos blocos da saúde mental. Nascido de uma construção coletiva entre usuários, familiares e profissionais da Rede de Atenção Psicossocial da Zona Oeste do Rio de Janeiro em 2015, seu propósito central é a reintegração social de pacientes através da música, da arte e da efervescência carnavalesca. Embora idealizado em 2015, seu primeiro desfile só ocorreu em 2017, consolidando sua presença na folia carioca.

Para o Carnaval de 2026, o <b>Zona Mental</b> tem seu desfile agendado para <b>6 de fevereiro</b>, com concentração às 16h na Praça Guilherme da Silveira, no Ponto Chic, em Bangu. A liderança do bloco é compartilhada pela musicoterapeuta Débora Rezende, do Centro de Atenção Psicossocial Neusa Santos Souza (CAPS Neusa Santos), e pela artista Rogéria Barbosa, usuária do mesmo CAPS. Débora enfatiza o papel do bloco em quebrar preconceitos, especialmente por representar a Zona Oeste, uma região periférica, e unir cerca de 14 ou 15 serviços de saúde. A agremiação conta ainda com a participação de artistas do samba de escolas renomadas como Unidos de Bangu e Mocidade Independente de Padre Miguel. Este ano, a homenagem será aos nordestinos residentes na Zona Oeste, com um samba-enredo autoral de Marco Antonio Amaral, usuário do CAPS Neusa Santos, celebrando a vida e obra do multi-instrumentista Hermeto Pascoal, natural de Alagoas e morador da região de Bangu, falecido em 2025.

Tá Pirando, Pirado, Pirou!: Celebrando a Lei Antimanicomial e a Reforma Psiquiátrica

Outro pilar dessa vertente do carnaval é o bloco <b>Tá Pirando, Pirado, Pirou!</b>, que em 2026 completa 21 anos de existência e celebrará os 25 anos da promulgação da Lei 10.216/2001, conhecida como Lei Antimanicomial ou Lei da Reforma Psiquiátrica. Seu desfile está marcado para <b>8 de fevereiro</b>, com concentração às 15h na Avenida Pasteur, na Urca, próximo à Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).

A agremiação presta uma justa homenagem ao médico psiquiatra italiano Franco Basaglia, figura seminal para a reforma psiquiátrica brasileira, que esteve no país em 1979. O psicanalista Alexandre Ribeiro, um dos fundadores do bloco, reconhece Basaglia como a maior inspiração para o movimento. A visita de Basaglia ao então Hospital-Colônia de Barbacena (MG), local onde mais de 60 mil pessoas pereceram devido a maus-tratos, marcou-o profundamente, levando-o a comparar o manicômio a um “campo de concentração nazista”. Inspirados pelo movimento da psiquiatria democrática italiana, profissionais da saúde mental brasileiros redigiram o Manifesto de Bauru em 1987, que instituiu o 18 de maio como o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, sob o lema "Por uma sociedade sem manicômios". Essa mobilização popular culminou na aprovação da Lei 10.216 em 2001, um marco na luta por um cuidado em liberdade. O bloco será acompanhado pela potente bateria da Portela, além de outros blocos convidados.

Um Legado de Respeito e Humanidade nas Ruas

Os blocos de saúde mental representam muito mais do que a efemeridade do carnaval; eles são a materialização de um ideal de sociedade mais justa e acolhedora. Ao ocuparem as ruas, levam a mensagem de que a diversidade é intrínseca à condição humana e que o sofrimento psíquico não deve ser motivo de exclusão, mas sim de solidariedade e cuidado. Essas agremiações não só revitalizam o espírito do carnaval com sua energia e criatividade, mas também pavimentam um caminho para um futuro onde a inclusão, o respeito às diferenças e a dignidade humana sejam celebrados em cada esquina, em cada sorriso e em cada passo de samba, muito além dos dias de folia.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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