O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) divulgou que a balança comercial brasileira registrou um superávit de US$ 6,405 bilhões em março, o menor valor para o mês desde 2020. Esse desempenho marca uma queda de 17,2% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando o superávit atingiu US$ 7,736 bilhões. A retração é atribuída principalmente à acentuada diminuição nas exportações de café e a um significativo aumento nas importações de veículos, delineando um cenário de ajustes no comércio exterior do país.
Movimentação Mensal: Exportações e Importações em Destaque
Apesar da redução no saldo positivo, tanto as exportações quanto as importações atingiram patamares notáveis em março. As vendas externas totalizaram US$ 31,603 bilhões, representando um aumento de 10% em comparação com março do ano passado e configurando o segundo maior valor já registrado para o mês na série histórica, ficando atrás apenas de março de 2023. Por outro lado, as importações alcançaram US$ 25,199 bilhões, um crescimento de 20,1% na mesma base de comparação, estabelecendo um novo recorde para o mês desde o início da série em 1989. O superávit foi contido pelo ritmo mais acelerado de crescimento das importações em relação às exportações.
Análise Setorial e Produtos-Chave do Comércio Exterior
Desempenho dos Setores Produtivos nas Exportações
A performance das exportações em março foi diversa entre os setores. A Indústria Extrativa liderou o crescimento com um impressionante aumento de 36,4%, impulsionada principalmente pelo petróleo bruto, que registrou alta de 36,4% em volume. A Indústria de Transformação expandiu suas vendas em 5,4%, com incrementos tanto em volume (4,2%) quanto em preço médio (1%). A Agropecuária apresentou um crescimento mais modesto de 1,1%, refletindo uma queda de 2% no volume de produtos exportados, compensada por um aumento de 3% no preço médio.
Produtos em Evidência e a Queda nas Vendas de Café
Entre os produtos que mais contribuíram para o aumento das exportações, destacam-se na agropecuária: animais vivos (exceto pescados ou crustáceos, +49,4%), algodão em bruto (+33,6%) e soja (+4,3%). Na indústria extrativa, outros minerais brutos (+55,9%), outros minérios e concentrados de metais de base (+66,8%) e óleos brutos de petróleo (+70,4%) foram os principais impulsionadores. Já na indústria de transformação, carne bovina fresca, refrigerada ou congelada (+29%), combustíveis (+30%) e ouro não monetário (+92,7%) mostraram forte expansão. Em contraste, as exportações de café sofreram uma queda expressiva de 30,5%, representando US$ 437,1 milhões a menos que em março do ano anterior, devido a uma redução de 31% na quantidade exportada por ajustes nos cronogramas de embarque. Apesar do forte crescimento de US$ 1,971 bilhão nas exportações de petróleo bruto, espera-se uma queda nos próximos meses em função da alíquota temporária de 12% do Imposto de Exportação sobre o petróleo, implementada em meados de março para controlar os preços dos combustíveis.
Forte Aumento nas Importações, Liderado por Veículos
O expressivo aumento das importações em março foi fortemente influenciado pela aquisição de veículos, cujas compras do exterior subiram US$ 755,7 milhões em comparação com o mesmo mês do ano anterior. Além dos automóveis de passageiros, que registraram um aumento notável de 204,2%, outras categorias também contribuíram para o crescimento das importações. Na agropecuária, pescados (+28,9%), frutas e nozes não oleaginosas (+26,6%) e, de forma surpreendente, soja (+782%) apresentaram alta. A indústria extrativa importou mais minérios e concentrados de metais de base (+33,7%), carvão não aglomerado (+59,9%) e óleos brutos de petróleo (+19,4%). A indústria de transformação viu crescer as importações de outros medicamentos (+72,2%) e adubos ou fertilizantes químicos (+61%).
Balança Comercial Acumulada no Primeiro Trimestre
Contrastando com o resultado mensal, o balanço acumulado da balança comercial nos três primeiros meses do ano (janeiro a março) apresenta um cenário mais robusto. O superávit alcançou US$ 14,175 bilhões, valor 47,6% superior ao registrado no mesmo período do ano passado. Esse crescimento deve-se, em grande parte, à não repetição da importação de uma plataforma de petróleo em fevereiro de 2026, operação que havia ocorrido em 2025. No período, as exportações somaram US$ 82,338 bilhões, com alta de 7,1%, enquanto as importações totalizaram US$ 68,163 bilhões, aumento de 1,3%. O superávit acumulado no primeiro trimestre é o terceiro maior da série histórica, apenas abaixo dos registrados em 2024 e 2023.
Projeções Oficiais para o Comércio Exterior em 2026
Com base nos dados mais recentes, o Mdic revisou suas estimativas para a balança comercial em 2026. A pasta projeta um superávit comercial de US$ 72,1 bilhões para o ano, o que representaria um aumento de 5,9% em relação ao resultado positivo de US$ 68,1 bilhões em 2025. Essa nova projeção é uma atualização em relação à estimativa inicial de janeiro, que variava entre US$ 70 bilhões e US$ 90 bilhões. Para as exportações, a expectativa é de que encerrem o ano em US$ 364,2 bilhões, alta de 4,6% frente a 2025. As importações, por sua vez, devem atingir US$ 280,2 bilhões, um incremento de 4,2% na comparação anual. Essas projeções são atualizadas trimestralmente pelo ministério, refletindo a dinâmica e as mudanças no cenário econômico global.
Em síntese, o cenário da balança comercial brasileira em março de 2026 revela um momento de desafios e adaptações, com a contração do superávit mensal impulsionada por fatores específicos como a dinâmica do café e dos veículos. Contudo, o desempenho acumulado do primeiro trimestre demonstra resiliência, superando o período anterior. As projeções revisadas pelo Mdic para o ano reforçam a expectativa de um saldo positivo robusto, ainda que com nuances a serem observadas, como o impacto de medidas tributárias no setor de petróleo. O Brasil segue navegando em um ambiente de comércio global complexo, com seus principais setores reagindo de maneiras distintas às demandas e ofertas internacionais.