As liquidações do Banco Master, decretada em novembro de 2025, e da gestora de investimentos Reag, ocorrida em fevereiro, desvelaram um dos episódios mais complexos e graves da história recente do sistema financeiro brasileiro. O caso, que atraiu a atenção de órgãos reguladores e do Judiciário, envolve suspeitas de fraudes que podem ultrapassar a casa dos bilhões de reais, o uso sofisticado de fundos de investimento para mascarar prejuízos e, em um de seus desdobramentos, até mesmo uma tentativa frustrada de socorro via um banco público. As liquidações do Banco Master e da Reag expuseram vulnerabilidades e geraram um intrincado “xadrez” institucional, com repercussões diretas para milhões de investidores e para a credibilidade de importantes instituições do país.
A ascensão e queda do Banco Master
Controlado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, o Banco Master experimentou um crescimento vertiginoso no mercado, em grande parte impulsionado pela oferta de Certificados de Depósitos Bancários (CDB) com rentabilidades significativamente acima da média de seus concorrentes. Essa estratégia agressiva, embora atraente para investidores em busca de altos retornos, ocultava uma estrutura financeira que se mostrou insustentável e, segundo investigações, fraudulenta.
O modelo de negócio insustentável
Para manter o ritmo acelerado de crescimento e sustentar a promessa de rentabilidades elevadas, o banco teria assumido riscos excessivos. Relatórios de investigadores apontam para a estruturação de operações complexas que, na prática, inflavam artificialmente o balanço da instituição, enquanto a liquidez real – ou seja, o dinheiro disponível para honrar os compromissos com os investidores – se deteriorava de forma alarmante. A alta rentabilidade oferecida funcionava como um chamariz para novos recursos, essenciais para manter a engrenagem girando.
O mecanismo da fraude: triangulações e ativos fictícios
O cerne do esquema financeiro, que teria desviado cerca de R$ 11,5 bilhões entre 2023 e 2024, operava por meio de uma complexa rede de triangulações. O Banco Master concedia empréstimos a empresas que seriam supostamente “laranjas”, ou seja, firmas criadas com o propósito de dissimular a origem ou destino de recursos. O dinheiro desses empréstimos era então aplicado em fundos de investimento administrados pela gestora Reag Investimentos. Esses fundos, por sua vez, eram utilizados para adquirir ativos de baixo ou nenhum valor real, como certificados do extinto Banco Estadual de Santa Catarina (Besc), porém por preços artificialmente inflacionados, gerando um ciclo vicioso de valorização fictícia. O Banco Central identificou seis fundos da Reag considerados suspeitos, cujo patrimônio conjunto somava impressionantes R$ 102,4 bilhões. O dinheiro circulava entre fundos ligados aos mesmos intermediários até alcançar os beneficiários finais do esquema.
O esquema Ponzi e a tentativa de socorro
A estratégia para adiar o colapso do Banco Master também incluía características de um clássico esquema de pirâmide financeira, conhecido como esquema Ponzi.
A pirâmide financeira e o colapso iminente
Para postergar a inadimplência e a revelação de suas dificuldades financeiras, o Banco Master concedia empréstimos com longos períodos de carência, em alguns casos, de até cinco anos. Paralelamente, a captação de novos Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) era fundamental para pagar os investidores antigos, configurando o mecanismo de uma pirâmide financeira. O banco chegou a ofertar CDBs que rendiam até 140% da taxa do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), um nível considerado insustentável por especialistas do mercado. Contudo, com as primeiras suspeitas sobre a credibilidade do banco em 2024, a captação de novos recursos secou, levando o caixa da instituição ao colapso.
A frustrada venda ao Banco de Brasília (BRB)
Em uma tentativa desesperada de gerar liquidez e mascarar as perdas, o Banco Master simulou a compra de uma carteira de crédito no valor de R$ 6 bilhões da empresa Tirreno. Essa operação, conforme investigado, existia apenas contabilmente, sem o pagamento ou o crédito real correspondente. Após analisar os CPFs vinculados à carteira, o Banco Central concluiu que as operações eram inexistentes. Posteriormente, a mesma carteira simulada teria sido “revendida” ao Banco de Brasília (BRB) por R$ 12 bilhões, após uma suposta manipulação da taxa de juros. Em setembro, o Banco Central interveio e barrou a tentativa de venda de parte do Banco Master ao BRB, sob a suspeita de que a proposta visava fundir os balanços das instituições e diluir a fraude em um banco público.
O papel central da Reag Investimentos e a intervenção regulatória
A gestora de investimentos Reag desempenhou um papel crucial na operacionalização do esquema do Banco Master, o que levou à sua própria liquidação.
A gestora no epicentro da fraude
Os fundos administrados pela Reag Investimentos surgem como uma peça central na sustentação do esquema fraudulento. A Reag é suspeita de ter facilitado a constituição de empresas de fachada ou “laranjas” para emprestar recursos a esses fundos. Além disso, os fundos sob sua gestão são investigados por supostamente terem valorizado ativos fictícios e pulverizado recursos de forma a dificultar o rastreamento. A liquidação da gestora pelo Banco Central, em desdobramento direto do caso Master e após a segunda fase da Operação Compliance Zero, é vista como uma consequência inevitável de seu envolvimento.
A intervenção do Banco Central e o desfecho
Diante do agravamento da situação, o Banco Central agiu para conter o Banco Master. Inicialmente, limitou a captação de novos recursos pelo banco a 100% do CDI, o que praticamente paralisou seu crescimento. Desde abril de 2025, o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) passou a cobrir os CDBs vencidos por meio de uma linha emergencial. O controlador do banco ainda tentou aportar recursos pessoais na tentativa de salvar a instituição, mas sem sucesso. A liquidação do Banco Master foi decretada quando a instituição não conseguia honrar sequer 15% dos vencimentos semanais de seus títulos.
Impactos sistêmicos e tensões institucionais
A liquidação do Banco Master, apesar de representar apenas 0,5% dos ativos do sistema financeiro, gerou ondas de choque e tensões significativas entre diferentes órgãos públicos, dada a complexidade e a escala da fraude.
O FGC e o desafio dos ressarcimentos
Com a liquidação do Banco Master, cabe ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), um fundo mantido por contribuições dos bancos, a árdua tarefa de ressarcir cerca de 1,6 milhão de clientes. O FGC estima desembolsar aproximadamente R$ 41 bilhões, um valor que corresponde a cerca de um terço do patrimônio total do fundo, marcando o maior resgate da história da entidade. O limite de cobertura é de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ. No entanto, o pagamento aos investidores depende da consolidação da lista de credores pelo liquidante, um processo que ainda não havia sido concluído dois meses após a liquidação. Importante ressaltar que os fundos da Reag Investimentos não contam com a proteção do FGC, embora seus cotistas tenham a opção de escolher outra gestora para administrar seus recursos. Um detalhe alarmante é que 18 fundos de pensão estaduais e municipais, que investiram R$ 1,86 bilhão em fundos do Master e em Letras Financeiras, não serão ressarcidos, pois esses tipos de investimentos não são cobertos pelo FGC.
O embate entre os poderes e a busca por responsabilidade
A complexidade do caso Master extrapolou o âmbito financeiro e gerou questionamentos simultâneos no Supremo Tribunal Federal (STF), no Tribunal de Contas da União (TCU) e no Congresso Nacional sobre as decisões técnicas tomadas pelo Banco Central. Houve um acordo entre o Banco Central e o TCU para a inspeção de documentos, com a condição de que não comprometessem o sigilo bancário e as prerrogativas da autoridade monetária. O ministro Dias Toffoli, do STF, que assumiu as ações judiciais relacionadas ao Banco Master, chegou a tentar uma acareação que incluiria um diretor de Fiscalização do Banco Central, mas posteriormente desistiu da ideia e determinou que a Polícia Federal colhesse apenas depoimentos adicionais de Daniel Vorcaro e do ex-presidente do BRB. Após determinar que todo o material apreendido pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero ficasse sob custódia do STF, o ministro Toffoli finalmente autorizou a análise do material pela própria Polícia Federal, com o apoio da Procuradoria-Geral da República.
Legado de um escândalo histórico
O episódio das liquidações do Banco Master e da Reag Investimentos representa um marco no sistema financeiro nacional, expondo uma série de falhas de fiscalização, o uso indevido de fundos de investimento e pressões significativas sobre instituições reguladoras e de controle. O escândalo levanta sérias dúvidas sobre a eficácia de auditorias externas e agências de rating, que, em determinado momento, atestavam a saúde financeira do Banco Master, bem como os limites da supervisão financeira como um todo. Este caso deve se tornar uma referência para futuras mudanças regulatórias e para o debate sobre a governança e a integridade no mercado financeiro brasileiro.
Perguntas frequentes (FAQ)
1. O que foi o esquema financeiro envolvendo o Banco Master e a Reag?
O esquema envolvia a concessão de empréstimos pelo Banco Master a empresas supostamente “laranjas”, que então aplicavam os recursos em fundos da Reag Investimentos. Esses fundos, por sua vez, compravam ativos sem valor real por preços inflacionados, criando um ciclo de desvio e ocultação de prejuízos, além de operar um esquema de pirâmide financeira com a captação de CDBs.
2. Como os clientes do Banco Master serão impactados?
Cerca de 1,6 milhão de clientes do Banco Master serão ressarcidos pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) em até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ. O FGC estima desembolsar R$ 41 bilhões, o maior valor de sua história. No entanto, o pagamento depende da consolidação da lista de credores pelo liquidante.
3. Qual o papel da Reag Investimentos neste caso?
A Reag Investimentos é apontada como peça central na sustentação da fraude. Seus fundos são suspeitos de terem facilitado a constituição de empresas de fachada, valorizado ativos fictícios e pulverizado recursos, o que levou à sua própria liquidação pelo Banco Central como desdobramento direto do caso Master.
4. Por que este caso é considerado histórico para o sistema financeiro brasileiro?
É histórico por expor falhas críticas na fiscalização, o uso complexo de fundos para fraudes e as tensões entre importantes órgãos públicos. Além disso, o volume de recursos envolvido e o número de clientes impactados o tornam o maior resgate da história do FGC, impulsionando debates sobre governança e regulamentação.
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