O mercado de trigo, tanto no Brasil quanto globalmente, sinaliza uma iminente rodada de valorização nos preços. Essa tendência, considerada inevitável por especialistas do setor, como Luiz Pacheco, analista da T&F Consultoria, terá um impacto direto no cotidiano dos consumidores, que deverão observar elevações nos valores de produtos essenciais como pães, massas e biscoitos.
Cenário Global e Doméstico do Trigo
Apesar de flutuações pontuais, o panorama internacional do trigo é marcado por uma forte pressão altista. A cotação do grão na bolsa de Chicago, um termômetro para os preços mundiais, experimentou um salto significativo. Partindo de patamares entre US$ 5,10 e US$ 5,20 por bushel, o valor atingiu cerca de US$ 6,20 no início de março, mantendo-se em um nível elevado mesmo após eventuais correções de mercado.
No contexto brasileiro, os preços do trigo também demonstram solidez. No Paraná, a tonelada do cereal é negociada entre R$ 1.350 e R$ 1.400, enquanto no Rio Grande do Sul, as transações iniciam em R$ 1.200 por tonelada, podendo ultrapassar R$ 1.300 dependendo da qualidade. A oferta de trigo importado do Paraguai, com custos entre US$ 260 e US$ 270 por tonelada entregue no oeste paranaense, e de outras origens, que pode alcançar de R$ 1.561 a R$ 1.712 por tonelada, contribuem para reforçar a escalada de preços no mercado interno.
O Impacto Direto na Cadeia Alimentícia
A principal e mais imediata consequência da alta do trigo se manifestará nos preços da farinha, insumo primordial para grande parte da indústria alimentícia. Há um consenso no setor de que um reajuste, estimado entre 5% e 10%, é esperado já em abril. Atualmente, a tonelada de farinha varia entre R$ 1.970 e R$ 2.000. Analistas apontam que, dados os custos atuais, moinhos frequentemente consideram mais vantajoso comercializar o trigo em grão do que processá-lo, o que acaba por transferir essa pressão de custos ao consumidor final.
Fatores Por Trás da Valorização
Oferta Reduzida e Problemas Climáticos
Diversos fatores convergem para sustentar a tendência de alta do trigo. No Brasil, a entrada da entressafra se soma a estoques limitados e à escassez de trigo de alta qualidade. Globalmente, problemas climáticos severos afetam a produção: cerca de 55% das lavouras de trigo de inverno nos Estados Unidos estão sob condições de seca, um aumento considerável em comparação aos 34% registrados no ano anterior. Essa conjuntura é agravada por projeções que indicam uma produção mundial menor, com estimativas de 822 milhões de toneladas para 2026/27, abaixo do recorde anterior de 845 milhões.
Custos Operacionais e Riscos Geopolíticos
Os custos operacionais da cadeia produtiva também exercem pressão. Houve um aumento significativo em insumos, energia e fretes, que em alguns casos já subiram pelo menos 10%. Adicionalmente, o cenário é influenciado por riscos geopolíticos, como os conflitos no Mar Negro e no Oriente Médio, que impactam diretamente a logística e a segurança do comércio internacional de grãos, inclusive ameaçando agricultores brasileiros. A valorização do dólar, que se mantém acima de R$ 5,30, encarece ainda mais as importações, contribuindo para a elevação dos custos internos.
Repercussões para o Consumidor e a Indústria
Para o consumidor, a expectativa é que o pão francês seja o primeiro produto a sentir o impacto dos aumentos, seguido por massas e biscoitos. Em resposta a esse cenário, o mercado já observa movimentos de antecipação: alguns compradores e indústrias estão adiantando suas aquisições para mitigar os efeitos de futuras elevações de preços, enquanto outros estão explorando a mistura de farinhas mais acessíveis como estratégia para conter os custos de produção.
Em suma, a complexa interação de fatores, desde condições climáticas adversas e oferta reduzida até o encarecimento de insumos e instabilidades geopolíticas, converge para um cenário de alta sustentada nos preços do trigo. Essa realidade se traduz em desafios para a cadeia alimentícia e um inevitável repasse ao consumidor, que terá de se adaptar a novos patamares de custo para produtos de consumo diário.
Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br