Em plena temporada de colheita de culturas essenciais como arroz e soja, produtores rurais do Rio Grande do Sul e do Paraná enfrentam uma situação crítica: a escassez de óleo diesel e aumentos considerados “abusivos” no preço do combustível. Essa conjuntura inesperada ameaça a continuidade das operações agrícolas e levanta preocupações sobre a segurança alimentar e a economia do setor, evidenciando a vulnerabilidade da cadeia de suprimentos em um momento crucial.
O Cenário de Alerta nas Lavouras do Sul
A urgência do problema é sentida diretamente no campo. Fernando Rechsteiner, produtor de arroz em Pelotas (RS), relata uma mudança drástica: a facilidade anterior de aquisição do diesel deu lugar a listas de espera, com o litro saltando de R$ 5 para R$ 7. A situação não é isolada. No Paraná, o técnico Luiz Eliezer Ferreira, do departamento econômico do Sistema FAEP, confirma relatos de falta do insumo desde a terça-feira, abrangendo localidades como Rio Azul, Faxinal, Guarapuava, Prudentópolis e Irati. No norte do Rio Grande do Sul, em Erechim, cerca de 20% dos agricultores enfrentam obstáculos para encontrar o combustível, com reajustes que chegam a surpreendentes 20% a 55% no valor, conforme o presidente do Sindicato Rural local, Allan André Tormen.
A Complexa Rede de Distribuição no Campo
Para entender a raiz da dificuldade, é crucial analisar como o diesel chega às propriedades rurais. A maioria dos produtores não possui infraestrutura para armazenar grandes volumes, dependendo do abastecimento contínuo fornecido pelas Transportadoras Revendedoras Retalhistas (TRRs). Essas empresas atuam como intermediárias, comprando o combustível de grandes distribuidoras para entregá-lo diretamente nas fazendas. Carlos Schneider, diretor do SindTRR no RS, explica que o cerne do problema é a interrupção no fornecimento das distribuidoras para as TRRs. Ele aponta que muitas TRRs operam como clientes 'spot', sem contratos fixos, o que as coloca em desvantagem na prioridade de atendimento em momentos de restrição. O recado que têm recebido é de indisponibilidade do produto para essa modalidade de compra.
Conflito Global, Preços Locais e a Sombra da Especulação
O contexto internacional, marcado pelo conflito entre EUA, Israel e Irã, impulsionou a cotação do barril de petróleo, que se aproxima dos US$ 100. Embora a Petrobras não tenha reajustado seus preços internos, o diesel já registrou uma alta de 7% no mercado brasileiro nos primeiros dias de março. No entanto, para Antônio Luz, economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), a súbita escassez e a elevação dos preços parecem indicar um 'movimento especulativo'. Ele argumenta que o diesel atualmente em estoque nas distribuidoras foi adquirido quando o petróleo estava abaixo de US$ 60, sugerindo que a retenção do produto visa maiores lucros futuros. Schneider, do SindTRR, reforça essa teoria, ao ponderar que a dependência brasileira da importação de 25% a 30% do diesel consumido pode levar as distribuidoras a ‘abrir mão’ de suas cotas para evitar prejuízos diante da valorização do produto, criando um vácuo no abastecimento e falta de transparência sobre a real situação.
A Resposta da ANP e o Apelo por Transparência
Diante das crescentes queixas, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) emitiu uma nota afirmando não haver registro de falta de combustível em nível nacional. A agência informou ter contatado os principais fornecedores, apurando que o Rio Grande do Sul, em particular, possui estoques suficientes para garantir o abastecimento de diesel. Para dirimir dúvidas, a ANP notificará formalmente as distribuidoras para que apresentem esclarecimentos sobre volumes em estoque, pedidos recebidos e efetivamente aceitos. Enquanto o Sindicato Nacional das Empresas de Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom) optou por não se manifestar, a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) defendeu, em nota conjunta, a importação de até 20% da demanda nacional de biodiesel como medida para conter a escalada de preços. A ausência de explicações claras por parte das grandes distribuidoras alimenta a desconfiança e a urgência por respostas no setor agrícola.
A atual crise no abastecimento de diesel representa um desafio iminente para a agricultura brasileira, afetando diretamente a capacidade dos produtores de concluir a colheita em um momento crucial. A dificuldade em obter o insumo vital e os aumentos exorbitantes de preço não só comprometem a rentabilidade do produtor, mas também levantam a preocupação sobre um possível encarecimento dos alimentos na mesa do consumidor. É imperativo que as autoridades e os elos da cadeia de distribuição atuem com transparência e celeridade para normalizar o fornecimento e coibir práticas especulativas, garantindo a sustentabilidade do agronegócio e a estabilidade econômica do país.
Fonte: https://g1.globo.com