O litoral do Paraná está em alerta após a descoberta de sacos de contenção de areia, originalmente empregados em Matinhos para mitigar a erosão costeira, espalhados por diversas praias. A situação se tornou mais grave nesta quarta-feira (21), com registros dos materiais em Pontal do Paraná, a uma distância de aproximadamente 25 quilômetros do ponto inicial de aplicação. A dispersão desses elementos, que foram cruciais em uma intervenção emergencial, levanta sérias preocupações ambientais e questionamentos sobre a eficácia e o impacto de tais soluções na sensível biodiversidade marinha.
A Origem do Problema: Intervenção em Matinhos
A história da aparição desses sacos remonta a um fenômeno natural recorrente: a formação de um paredão de areia em Matinhos. Esse processo erosivo, frequentemente desencadeado por ressacas – tempestades com ventos fortes e marés elevadas –, impactou a orla, inclusive próximo à estrutura de shows do evento Verão Maior, promovido pelo Governo do Estado. A primeira ocorrência significativa foi registrada em 4 de janeiro, quando equipes estaduais realizaram uma contenção emergencial, utilizando cerca de 1.900 sacos de areia para tentar nivelar e recompor a orla afetada. No entanto, uma nova ressaca em 19 de fevereiro provocou a desestabilização da barreira, derrubando até mesmo banheiros químicos e expondo os sacos, muitos dos quais já estavam vazios ou em processo de desmanche, juntamente com a manta de contenção.
O Alarme Cidadão e a Descoberta da Dispersão
A mobilização de cidadãos foi fundamental para evidenciar a extensão do problema. Em Matinhos, o surfista Edson Luiz Vasques foi registrado retirando um saco volumoso da água, movido pela preocupação com a limpeza do ambiente marinho, essencial para seu sustento e prática esportiva. A gravidade da situação se ampliou quando, durante uma caminhada em Pontal do Paraná, Giselle Mazuroski e seu marido encontraram múltiplos sacos. Uma das etiquetas fotografadas por Giselle em Pontal do Paraná correspondia exatamente às identificadas pela equipe da RPC no paredão de Matinhos, confirmando a origem. Giselle, professora, expressou profunda preocupação com o impacto dos plásticos e fragmentos desfiados sobre a fauna marinha, refletindo os princípios que ela mesma ensina aos seus alunos.
Impacto Ambiental e Análise Científica
A preocupação com a biodiversidade marinha é endossada pela comunidade científica. Pesquisadores do Centro de Estudos do Mar da Universidade Federal do Paraná (UFPR) também coletaram embalagens semelhantes em balneários como Shangri-lá e Pontal do Sul, indicando uma dispersão ainda mais ampla. Camila Domit, coordenadora do programa, enfatizou que o plástico representa uma ameaça significativa ao ecossistema marinho, tanto em sua forma maior quanto após sua degradação. Ela alertou que o material pode persistir por centenas de anos, causando problemas em todas as etapas de sua decomposição e afetando diretamente a flora e fauna aquáticas.
Posicionamento das Autoridades e Implicações Legais
Em resposta à crise, o Instituto Água e Terra (IAT) havia se pronunciado previamente, através de seu presidente Everton Luiz da Costa Souza. Ele informou que os sacos são feitos de ráfia, um material não biodegradável, mas garantiu que seriam recolhidos e, se possível, reaproveitados para a barreira semirrígida. Contudo, na tarde da quarta-feira, a equipe da RPC ainda encontrou um grande número de sacos no paredão de Matinhos, alguns com a inscrição “não reutilizável” e outros indicando o uso original para fertilizantes, o que levanta questões sobre a destinação e gestão dos materiais. Diante do cenário, o Ministério Público Federal (MPF) solicitou diligências ao Ibama, alertando que a colocação de sacos plásticos na orla, se confirmada a poluição, pode acarretar responsabilidades cíveis e criminais. O IAT, por sua vez, reforçou em nota que está trabalhando na manutenção da contenção, utilizando areia de regiões com acréscimo e substituindo sacos danificados, além de ter ordenado que a empresa responsável pela obra realize uma varredura nas praias para a retirada de qualquer material disperso. Entretanto, o órgão não abordou as questões relativas às etiquetas de fertilizantes nem o risco de poluição da água.
Desafios Contínuos na Gestão Costeira
A situação dos sacos de contenção de areia nas praias do Paraná exemplifica a complexidade dos desafios na gestão costeira e na proteção ambiental. A necessidade de conter processos erosivos colide com a urgência de evitar a contaminação dos ecossistemas marinhos por materiais não biodegradáveis. A dispersão desses sacos, que deveriam servir como solução, transformou-se em um novo problema ambiental, exigindo uma abordagem mais robusta e sustentável por parte das autoridades, com fiscalização rigorosa e a busca por alternativas que minimizem o impacto ecológico a longo prazo.
Fonte: https://g1.globo.com