A teledramaturgia brasileira foi enriquecida por um autor cuja capacidade de mergulhar nas complexidades das relações humanas e dos conflitos familiares se tornou uma marca registrada. Com uma carreira que atravessou mais de seis décadas, ele não apenas retratou o cotidiano carioca com maestria, mas também criou uma galeria de personagens femininas fortes e inesquecíveis: as Helenas. Essas mulheres, que sempre encabeçavam as tramas centrais de suas novelas, tornaram-se um ícone cultural, representadas por algumas das maiores atrizes do país. A cada nova história, uma nova Helena surgia, carregando consigo dilemas contemporâneos, paixões avassaladoras e sacrifícios tocantes, espelhando a força e a vulnerabilidade da mulher brasileira e consolidando um legado duradouro na história da televisão.
O legado duradouro de Manoel Carlos na teledramaturgia
A obra de Manoel Carlos, um dos mais influentes autores da televisão nacional, é vasta e profundamente enraizada na observação minuciosa da sociedade. Seus enredos, frequentemente ambientados no charmoso bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, transcendiam o simples entretenimento, funcionando como um espelho para as emoções humanas mais profundas. Por mais de 60 anos de carreira, o autor explorou temas como amor, perda, traição, família e autodescoberta com uma sensibilidade única, construindo narrativas que capturavam a atenção de milhões de telespectadores. A consistência em sua abordagem e a profundidade psicológica de seus personagens garantiram a ele um lugar de destaque na memória afetiva do público. Sua habilidade de criar histórias que ressoavam com a vida real, com diálogos orgânicos e situações verossímeis, foi um dos pilares de seu sucesso. A cada novela, ele consolidava sua assinatura, que ia muito além do estilo, tornando-se um modo de contar histórias.
A assinatura do autor: as Helenas
Entre as muitas contribuições de Manoel Carlos para a teledramaturgia, a figura da Helena é, sem dúvida, a mais emblemática. As Helenas não eram meras protagonistas; eram arquétipos da mulher brasileira, complexas, determinadas e, muitas vezes, confrontadas com escolhas que testavam seus limites. Ao todo, o autor apresentou ao público nove Helenas, começando com Lilian Lemmertz em “Baila Comigo”, de 1981, e culminando com sua filha, Júlia Lemmertz, em “Em Família”, de 2014, criando um elo geracional que só reforçou a mística em torno dessas personagens. Cada Helena era única em sua personalidade e desafios, mas todas compartilhavam uma resiliência notável e uma capacidade inigualável de amar e lutar por suas famílias. Elas eram mães, filhas, amantes, profissionais; representavam a mulher moderna em suas múltiplas facetas, tornando-se referências de força e autenticidade para o público. A escolha de atrizes consagradas para esses papéis elevava ainda mais o patamar dessas criações, garantindo interpretações memoráveis que se perpetuariam no imaginário popular.
As Helenas que fizeram história: personagens inesquecíveis
Ao longo de sua trajetória, Manoel Carlos presenteou o público com Helenas marcantes, que se tornaram ícones da televisão brasileira. Cinco delas, em particular, ilustram a profundidade e a versatilidade dessas criações.
Lilian Lemmertz em “Baila Comigo” (1981)
A primeira Helena de Manoel Carlos foi interpretada por Lilian Lemmertz, na novela “Baila Comigo”. Sua personagem era uma mãe atormentada por um passado de sacrifício. Diante de sua origem humilde, foi forçada a abandonar um de seus filhos gêmeos, Quinzinho e João Victor, ambos vividos por Tony Ramos. Apesar da culpa que a perseguia por ter permitido que João Victor fosse criado longe dela, Helena nutria grandes sonhos e expectativas para o futuro de ambos. Sua jornada era um retrato da resiliência feminina, da dor do abandono e da esperança em um reencontro, com a personagem buscando incessantemente reparar as feridas do passado e construir um futuro de união para seus filhos.
Regina Duarte em “Por Amor” (1997)
Em “Por Amor”, Regina Duarte deu vida a uma das Helenas mais icônicas e controversas. Sua personagem era uma mulher independente, que seguia os ditames de seu coração, não importando as consequências. A trama central girava em torno de um ato de amor e sacrifício extremos: Helena engravida de Atílio (Antônio Fagundes) ao mesmo tempo em que sua filha, Eduarda (Gabriela Duarte), também descobre a gestação. No entanto, Eduarda perde o bebê no parto, e Helena, em um gesto de devoção incondicional, decide trocar os recém-nascidos, afirmando que foi seu próprio filho quem faleceu. Essa decisão, que gerou intensos debates à época, destacou a complexidade do amor materno e os dilemas morais que podem surgir em nome da família.
Vera Fischer em “Laços de Família” (2000)
Vera Fischer protagonizou a Helena de “Laços de Família”, uma empresária de sucesso e dona de uma clínica de estética. Mãe de Fred (Luigi Baricelli) e Camila (Carolina Dieckmann), sua vida tomou um rumo inesperado ao conhecer o jovem médico Edu (Reynaldo Gianecchini) e engatar um romance com ele. Contudo, em um ato de desprendimento, ela renuncia ao amor de Edu para que sua filha Camila, que também se apaixonara pelo rapaz, pudesse viver essa paixão. O maior sacrifício de Helena, porém, estava por vir: quando Camila é diagnosticada com leucemia, e precisava de um doador compatível, Helena, já envolvida com Miguel (Tony Ramos), mais uma vez abriu mão de um relacionamento para engravidar de Pedro (José Mayer), o verdadeiro pai de Camila, com a intenção de gerar um bebê que pudesse salvar a vida de sua herdeira. Sua história é um hino ao amor materno incondicional e à capacidade de superação.
Regina Duarte novamente em “Páginas da Vida” (2006)
Regina Duarte assumiu o papel de Helena pela terceira vez em “Páginas da Vida”. Desta vez, sua personagem era uma médica obstetra que, ironicamente, não se sentia plenamente realizada como mãe e vivia uma crise em seu casamento com Greg (José Mayer). No hospital onde trabalhava, Helena se deparou com um grave dilema: Nanda (Fernanda Vasconcellos) dá à luz uma criança com síndrome de Down, que é rejeitada pela avó. Completamente apegada ao bebê, Helena trava uma batalha para adotar a criança, transformando a compaixão em uma nova forma de maternidade. A trama abordou a inclusão e o preconceito, mostrando a luta de Helena por uma criança que, para ela, era perfeita em sua singularidade.
Taís Araújo em “Viver a Vida” (2009)
Taís Araújo fez história ao interpretar a primeira e única Helena negra de Manoel Carlos em “Viver a Vida”. Sua personagem era uma top model de renome internacional, no auge de sua carreira, com quase 30 anos. Dona de uma maturidade precoce, Helena sempre priorizou sua trajetória profissional. Ao conhecer o sedutor Marcos (José Mayer) em um desfile, ela se encanta por seu cavalheirismo, decidindo abandonar a profissão para oficializar a união com ele. Marcos, entretanto, era um empresário do ramo hoteleiro, 20 anos mais velho e recém-divorciado da ex-modelo Teresa (Lilia Cabral). A história de Helena explorou as complexidades de relacionamentos com grandes diferenças de idade e os desafios de uma mulher forte que busca equilibrar sua vida pessoal e profissional em um novo capítulo de sua existência. Sua representatividade como a primeira Helena negra foi um marco na teledramaturgia.
Conclusão
As Helenas de Manoel Carlos transcenderam a ficção para se tornarem parte integrante da cultura popular brasileira. Elas não foram apenas personagens de novela; foram espelhos de uma sociedade em constante transformação, vozes para os dilemas femininos e símbolos de força, resiliência e, acima de tudo, amor incondicional. Desde a Helena que sacrifica um filho por necessidade, passando pela que troca bebês por devoção, pela que renuncia ao amor e até pela que luta pela adoção e a que desafia padrões raciais, cada uma delas deixou uma marca indelével. O legado dessas mulheres e do autor que as criou continua vivo, inspirando novas gerações e provando que a boa teledramaturgia é capaz de tocar a alma e provocar reflexões profundas sobre a condição humana.
FAQ
Quantas Helenas Manoel Carlos criou ao longo de sua carreira?
Manoel Carlos criou um total de nove Helenas ao longo de sua vasta carreira na teledramaturgia brasileira.
Qual foi a primeira e a última Helena de Manoel Carlos?
A primeira Helena foi interpretada por Lilian Lemmertz em “Baila Comigo” (1981). A última Helena foi vivida por sua filha, Júlia Lemmertz, em “Em Família” (2014).
Quais atrizes interpretaram a Helena mais de uma vez?
Regina Duarte foi a atriz que interpretou a Helena mais de uma vez, dando vida à personagem em “Por Amor” (1997) e “Páginas da Vida” (2006).
Qual Helena foi a primeira personagem negra de Manoel Carlos?
Taís Araújo interpretou a primeira e única Helena negra de Manoel Carlos na novela “Viver a Vida” (2009), marcando um momento importante na representatividade na teledramaturgia.
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