No sudoeste do Paraná, a cidade de Barracão oferece uma experiência singular de convivência internacional e intermunicipal. Uma rua, a República Argentina, desafia as noções convencionais de divisão territorial ao unir, em um único traçado, três cidades distintas, pertencentes a três estados diferentes e dois países. Sem barreiras físicas como rios ou postos alfandegários visíveis, esta fronteira urbana permite que moradores cruzem de Barracão (Paraná) para Dionísio Cerqueira (Santa Catarina) e Bernardo de Irigoyen (Misiones, Argentina) com poucos passos, tornando a travessia uma parte intrínseca do cotidiano. Essa particularidade geográfica cria uma tapeçaria cultural rica, onde o português se mescla ao espanhol, e as rotinas são marcadas pela fluidez entre nações. A vida em uma região tão interconectada redefine o conceito de vizinhança, promovendo uma integração profunda e diária entre os povos.
A vida cotidiana em três fronteiras
Rotina transfronteiriça e diversidade cultural
Morar em uma região onde três cidades, três estados e dois países se encontram no asfalto de uma única rua é uma experiência de vida verdadeiramente única e multicultural. Para os habitantes locais, a linha que divide os territórios é praticamente invisível e a travessia faz parte da rotina diária. Em poucos passos, as placas em português dão lugar ao espanhol, e as bandeiras mudam de cor, simbolizando a transição entre Brasil e Argentina. Essa proximidade fomenta uma mistura cultural contínua, onde brasileiros e argentinos interagem todos os dias.
Embora Barracão, no Paraná, tenha aproximadamente 10 mil habitantes e Dionísio Cerqueira, em Santa Catarina, onde a maior parte da rua está localizada, possua pouco mais de 15 mil, a percepção dos moradores é de viverem em uma única cidade integrada. Muitos cruzam a Rua República Argentina diariamente para trabalhar, fazer compras, estudar ou visitar familiares. Um morador de Barracão, por exemplo, relatou frequentar lojas e fazer consultas médicas em Santa Catarina. Para momentos de lazer, a fronteira com a Argentina é o destino preferido, especialmente para visitar lagos e descontrair ao ar livre, uma opção que pode não ser tão disponível no lado brasileiro da tríplice fronteira urbana.
A dinâmica econômica local também é profundamente influenciada por essa configuração. No comércio, é comum encontrar uma força de trabalho internacional. Em um supermercado local, cerca de 60% dos funcionários são argentinos. Essa presença estrangeira é vista como um fator de fortalecimento para o comércio e a economia local, impulsionada pela busca de melhores condições de emprego pelos vizinhos argentinos. A convivência diária no ambiente de trabalho promove o aprendizado de idiomas, onde brasileiros se familiarizam com o espanhol e os argentinos desenvolvem fluência em português, facilitando ainda mais a integração e o crescimento da fronteira.
Cidades gêmeas e o marco simbólico
Reconhecimento oficial e integração regional
Desde 2016, as cidades de Barracão (PR) e Dionísio Cerqueira (SC) são oficialmente reconhecidas como “cidades gêmeas” pelo Governo Federal brasileiro. Este título é concedido a municípios de fronteira que não apenas compartilham território, mas também economias, serviços e a vida cotidiana de seus habitantes. Essa designação facilita a implementação de políticas públicas conjuntas e a cooperação entre as administrauras municipais, visando o desenvolvimento e a integração regional. No Paraná, além de Barracão, outras cidades como Foz do Iguaçu, Guaíra e Santo Antônio do Sudoeste também possuem esse status, integrando um grupo de 33 cidades gêmeas em todo o país.
A peculiaridade da fronteira em Barracão reside na sua natureza “seca”, onde a divisão ocorre diretamente no asfalto, sem grandes acidentes geográficos como rios. Isso contrasta significativamente com a famosa tríplice fronteira de Foz do Iguaçu, onde rios imponentes marcam o encontro entre Brasil, Argentina e Paraguai. Em Barracão, a ausência de barreiras naturais visíveis e a livre circulação de pedestres contribuem para uma experiência de fronteira mais orgânica e integrada, onde a sensação de estar em um território único é predominante, apesar das divisões político-administrativas.
O marco das três fronteiras e a livre circulação
Um dos pontos mais emblemáticos e simbólicos da região é o Marco das Três Fronteiras. Localizado a poucos metros da Rua República Argentina, este monumento delimita o encontro exato dos três territórios: Barracão (PR), Dionísio Cerqueira (SC) e Bernardo de Irigoyen (Misiones, Argentina). No marco, imagens de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, e da Virgem de Luján, padroeira da Argentina, ficam posicionadas uma de frente para a outra, separadas por uma distância de aproximadamente 300 metros, cada qual voltada em direção ao seu país de origem, simbolizando a fé e a união entre os povos fronteiriços.
Apesar da facilidade de travessia para pedestres, que podem cruzar de um país a outro sem a necessidade de apresentar documentos, a situação é diferente para quem viaja de carro. Veículos que cruzam a fronteira são obrigados a passar por fiscalização aduaneira, garantindo o controle alfandegário e de imigração. Essa distinção facilita o fluxo de pessoas a pé, que frequentemente aproveitam a fronteira seca para fazer compras no lado argentino, buscando produtos como vinhos, azeites, doces e outros itens que podem ser mais vantajosos financeiramente ou de difícil acesso no Brasil. A conveniência de ir e vir diariamente a pé impulsiona o comércio transfronteiriço e a interação cultural contínua.
Conclusão
A tri-fronteira de Barracão, Dionísio Cerqueira e Bernardo de Irigoyen representa um fascinante exemplo de integração e convivência pacífica entre nações e estados. A Rua República Argentina, mais do que um simples traçado urbano, materializa a fluidez de uma realidade onde as divisões geográficas são tênues e a vida cotidiana transcende fronteiras. Essa singularidade não apenas enriquece a cultura local com uma tapeçaria de idiomas e costumes, mas também impulsiona a economia regional e reforça os laços humanos. A região se destaca como um modelo de como a proximidade física pode fomentar uma profunda interconexão social e econômica, desafiando a percepção tradicional de fronteira e celebrando a união de comunidades.
FAQ
Quais cidades e países se encontram na tri-fronteira da Rua República Argentina?
A Rua República Argentina conecta Barracão (Paraná, Brasil), Dionísio Cerqueira (Santa Catarina, Brasil) e Bernardo de Irigoyen (Misiones, Argentina).
O que significa o título de “cidades gêmeas” para Barracão e Dionísio Cerqueira?
Significa que são municípios de fronteira que compartilham não apenas território, mas também economia, serviços e a vida cotidiana, recebendo reconhecimento oficial do Governo Federal para cooperação e desenvolvimento conjunto.
É necessário apresentar documentos para cruzar a pé a fronteira na Rua República Argentina?
Não, pedestres podem cruzar livremente entre as cidades e países na Rua República Argentina sem a necessidade de apresentar documentos. A fiscalização é obrigatória apenas para veículos que passam pela aduana.
Como a tri-fronteira influencia a economia e a cultura local?
A tri-fronteira estimula o comércio transfronteiriço, atrai mão de obra estrangeira e promove o intercâmbio cultural e linguístico, fortalecendo a economia local e criando uma sociedade multicultural integrada.
Qual a principal diferença da fronteira de Barracão para a de Foz do Iguaçu?
A fronteira de Barracão é uma “fronteira seca” marcada no asfalto, sem barreiras naturais visíveis e com livre circulação de pedestres. Já a de Foz do Iguaçu é marcada por rios e possui postos de controle mais estruturados.
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Fonte: https://g1.globo.com