A sífilis, uma infecção sexualmente transmissível (IST) antiga e tratável, continua a registrar um crescimento acelerado no Brasil, alinhado a uma preocupante tendência global. Dados recentes de órgãos de saúde pública revelam um cenário desafiador, especialmente no que tange à sífilis congênita, transmitida de mãe para filho. O avanço da infecção impõe uma reflexão crítica sobre as estratégias de prevenção, diagnóstico e tratamento em todo o território nacional. A complexidade do problema exige uma abordagem multifacetada, envolvendo profissionais de saúde, gestores públicos e a própria população, para reverter esse preocupante quadro epidemiológico e garantir a saúde das futuras gerações.
O avanço silencioso da sífilis no Brasil
A sífilis tem se manifestado de forma preocupante no Brasil, com números que indicam uma escalada constante. Recentemente, levantamentos apontam que, entre 2005 e os dados mais recentes de 2024, o país registrou mais de 810 mil casos de sífilis em gestantes, sublinhando a gravidade da situação para a saúde materno-infantil. A distribuição geográfica desses diagnósticos revela que a Região Sudeste concentra a maior parte dos casos, com 45,7%, seguida pelo Nordeste (21,1%), Sul (14,4%), Norte (10,2%) e Centro-Oeste (8,6%), demonstrando uma dispersão significativa em todo o território nacional.
A taxa nacional de detecção da sífilis em gestantes atingiu 35,4 casos por mil nascidos vivos em 2024, um indicador alarmante que aponta para o avanço da transmissão vertical. Este fenômeno, em que a infecção é transmitida da mãe para o bebê durante a gestação ou o parto, é uma das faces mais trágicas da epidemia de sífilis, resultando em sífilis congênita. A persistência e o crescimento desses números desafiam décadas de esforços em saúde pública para conter a doença, evidenciando lacunas significativas no sistema de saúde e na conscientização da população.
O desafio da sífilis congênita e a atenção pré-natal
A sífilis congênita representa um dos maiores obstáculos na luta contra a sífilis no Brasil. Conforme especialistas, o enfrentamento dessa condição se estende desde a década de 1980, sem que o país tenha conseguido, de fato, reduzir significativamente suas cifras. A ginecologista Helaine Maria Besteti Pires Milanez, membro da Comissão Nacional Especializada em Doenças Infectocontagiosas da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), enfatiza que, apesar de a sífilis ser mais fácil de diagnosticar, rastrear e tratar do que, por exemplo, o HIV, ainda não se conseguiu um enfrentamento adequado para a sua redução, especialmente entre mulheres jovens e recém-nascidos.
A médica aponta que o Brasil enfrenta um problema sério tanto na população adulta jovem quanto na população em idade reprodutiva, o que se reflete diretamente no aumento da transmissão vertical. A sífilis é um desafio que não tem conseguido os mesmos resultados positivos que foram alcançados no combate ao HIV, onde houve um progresso considerável na transformação da doença em uma condição crônica e tratável. Essa disparidade nos resultados ressalta a urgência de revisar e intensificar as estratégias para a sífilis, principalmente no contexto do pré-natal.
Barreiras no diagnóstico e tratamento
Um dos principais entraves no controle da sífilis reside no subdiagnóstico e na interpretação inadequada dos exames por parte dos profissionais de saúde. A Dra. Helaine Milanez lamenta que, em muitos casos, a infecção passe despercebida ou seja tratada de forma equivocada. O exame VDRL (Venereal Disease Research Laboratory), amplamente utilizado no Brasil, é um teste não treponêmico que, embora não seja específico para a bactéria Treponema pallidum, é crucial para indicar a infecção e monitorar a resposta ao tratamento. No entanto, sua interpretação correta é fundamental.
O problema surge quando o profissional de saúde, ao deparar-se com um teste treponêmico positivo e um não treponêmico negativo, assume erroneamente que se trata de uma “cicatriz” de uma infecção passada e, portanto, não requer tratamento. Esta falha é crítica, pois muitas gestantes podem apresentar um teste não treponêmico positivo ou com título baixo, mantendo o ciclo de infecção que pode ser transmitido ao parceiro sexual e ao feto. A interpretação inadequada da sorologia no pré-natal é um fator determinante para os desfechos negativos.
Populações vulneráveis e a complexidade da infecção assintomática
Outro grave problema é a ausência ou o tratamento inadequado dos parceiros sexuais das gestantes infectadas. Quando os parceiros não são tratados, a bactéria continua circulando, levando à reinfecção da mulher grávida e, consequentemente, aumentando o risco de transmissão para o bebê. A falta de diagnóstico adequado e a subestimação da sorologia no pré-natal culminam, frequentemente, no nascimento de crianças com sífilis congênita. A Febrasgo, ciente desses desafios, promove cursos e materiais técnicos para capacitar profissionais de saúde na prevenção e tratamento das ISTs, visando uma abordagem mais eficaz das pacientes.
Além disso, o Ministério da Saúde disponibiliza protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas para a transmissão vertical de sífilis, HIV e hepatites virais, ressaltando que a informação está disponível, mas exige aplicação e estudo. A sífilis atinge hoje principalmente duas faixas etárias: jovens entre 15 e 25 anos e a terceira idade. Nos jovens, há uma percepção reduzida do risco de ISTs, levando ao abandono dos métodos de barreira, em parte porque o HIV é agora visto como uma doença crônica tratável. Já na terceira idade, o aumento da vida sexual ativa, impulsionado por medicamentos como o Viagra, e a ausência do risco de gravidez, também contribuem para a negligência na prevenção. Um dado alarmante é que mais de 80% das mulheres grávidas infectadas e muitos homens não apresentam sintomas da doença (forma assintomática ou latente), o que dificulta o diagnóstico e a interrupção da cadeia de transmissão.
Estratégias de prevenção e os riscos da negligência
A sífilis, em suas fases iniciais, pode se manifestar como uma úlcera genital ou oral (cancro duro), que muitas vezes desaparece mesmo sem tratamento. Em homens, essa lesão pode ocorrer na coroa do pênis, mas em mulheres, pode ficar escondida no fundo da vagina ou no colo do útero, passando despercebida. Essa característica assintomática é um grande desafio, pois o indivíduo pode continuar transmitindo a doença mesmo sem saber que está infectado. A sífilis latente, sem lesões visíveis, permite que a infecção se propague silenciosamente.
Com a proximidade de festividades como o Carnaval, a ameaça de contágio por sífilis se intensifica devido à menor adesão aos métodos de barreira. Embora existam avanços significativos na prevenção do HIV, como a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição), um medicamento antirretroviral que reduz o risco de infecção em mais de 90% quando usado corretamente e disponível gratuitamente no SUS, ainda não há uma ferramenta similar para a sífilis. A negligência no tratamento da sífilis pode levar à fase secundária, caracterizada por exantema difuso (manchas na pele, inclusive palmas e plantas dos pés), alopecia e lesões genitais. Em gestantes com sífilis recente, a chance de acometimento fetal é de até 100%, tornando o diagnóstico e tratamento urgentes para salvar a vida do bebê.
Perguntas frequentes (FAQ)
1. Por que a sífilis tem crescido tanto no Brasil?
O crescimento é atribuído a uma série de fatores, incluindo o relaxamento no uso de métodos de barreira (como a camisinha) por parte de jovens e idosos, o subdiagnóstico da doença por profissionais de saúde, a interpretação inadequada de exames, o não tratamento de parceiros sexuais e a natureza assintomática da infecção em muitas pessoas, o que dificulta sua detecção precoce.
2. Quais são os riscos da sífilis para gestantes e bebês?
Para gestantes, a sífilis pode levar a aborto espontâneo, parto prematuro ou natimorto. Para o bebê, a sífilis congênita pode causar malformações graves, deficiência mental, surdez, cegueira e até a morte. Em casos de sífilis recente na gestante, a chance de acometimento fetal é de até 100%.
3. O que é sífilis assintomática e como ela afeta o controle da doença?
A sífilis assintomática, ou latente, é quando o indivíduo está infectado pela bactéria, mas não apresenta sintomas visíveis. Isso é particularmente comum em mais de 80% das gestantes e em muitos homens. Essa ausência de sintomas dificulta o diagnóstico, pois a pessoa não busca ajuda médica, e permite que a doença seja transmitida a outros parceiros e, no caso de gestantes, ao feto, contribuindo para a propagação silenciosa da infecção.
A sífilis é uma ameaça real e persistente à saúde pública brasileira. É crucial que a população se conscientize sobre a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do tratamento completo, incluindo os parceiros sexuais. Não hesite: procure uma unidade de saúde, faça o teste e proteja-se e a quem você ama.