A investigação sobre o brutal assassinato de quatro homens que viajaram de São Paulo para cobrar uma dívida em Icaraíma, no noroeste do Paraná, ganhou novos contornos com a divulgação de áudios que indicam o receio das vítimas em relação ao perfil dos devedores. Robishley Hirnani de Oliveira, Rafael Juliano Marascalchi, Diego Henrique Afonso e Alencar Gonçalves de Souza foram encontrados mortos em setembro, após desaparecerem em agosto. As gravações revelam que ao menos dois dos cobradores suspeitavam que os devedores estariam envolvidos com tráfico de drogas e contrabando de cigarros, atividades frequentemente ligadas ao crime organizado. Este caso complexo, que já dura meses, expõe a perigosa teia de relações por trás de uma dívida aparentemente simples, levantando questões sobre os riscos inerentes a certas cobranças e a profundidade das ramificações criminosas na região.
Áudios expõem receios e suspeitas de ligação com o crime organizado
Os primeiros indícios da gravidade da situação surgiram em áudios trocados entre as vítimas antes do desfecho trágico. Em uma das gravações, enviada por Alencar a Diego no dia 4 de agosto, data do início das negociações pela dívida, Alencar expressa claramente seu medo de uma possível retaliação por parte dos devedores, Antonio Buscariollo, de 66 anos, e seu filho, Paulo Ricardo Costa Buscariollo, de 22. “É esse ponto aí que eu estava meio receoso de te falar, Henrique. Ele mexe com uns trem errado aqui. Tivemos a notícia dele depois que eu fui entrar em contato aqui, em mexer com a compra do sítio, aí que eu fui saber quem era o cara”, disse Alencar, indicando que a reputação dos Buscariollo havia gerado apreensão e que a relação com atividades ilícitas já era conhecida.
A apreensão diante de atividades ilícitas
A preocupação se intensificou no dia 5 de agosto, após o primeiro encontro entre os quatro homens e a família Buscariollo. Diego, em áudio enviado à sua esposa, descreveu a situação como “complicada”, mencionando explicitamente o envolvimento dos Buscariollo com atividades ilícitas. “Hoje tá um pega aqui do c. Correria! O povo se escondeu. O bicho tá pegando aqui hoje, hein? Vai fazer esse trem dar certo aqui, mas nós estamos num pega meio brabo aqui. O cara trafica cigarro aqui, passa pro Paraguai, sem vergonha, malando. Nós estamos meio esperto por causa de tiro, assim, dessas coisas, né? Mas vai dar certo, sim. Se Deus quiser, alguma coisa vai dar certo, né?”, relatou Diego, demonstrando a tensão e o ambiente de perigo percebido pelas vítimas. As informações trazidas pelas gravações são consideradas fundamentais para entender a dinâmica que levou aos assassinatos, corroborando indícios levantados pelas autoridades sobre a possível ligação da família Buscariollo com contrabando de cigarros e tráfico de drogas.
O desaparecimento e a emboscada fatal no Paraná
A jornada dos quatro homens começou em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, quando Robishley, Rafael e Diego viajaram até Icaraíma para se encontrar com Alencar. A motivação era a cobrança de uma dívida de R$ 255 mil, referente à venda de uma propriedade rural por Alencar à família Buscariollo. Este valor, dividido em dez notas promissórias de R$ 25 mil, nunca foi pago. Alencar, por sua vez, havia contratado os serviços de cobrança de Diego, acertando um percentual de 50% do valor recuperado como pagamento, em uma transação de alto risco que se mostraria fatal.
A cronologia dos eventos que levaram ao crime
No dia 4 de agosto, as vítimas chegaram a Icaraíma e, acompanhadas de Alencar, foram até o distrito de Vila Rica para fazer o primeiro contato com Antonio e Paulo Buscariollo. Na ocasião, os devedores teriam oferecido uma casa na área urbana como forma de pagamento, mas nenhum acordo foi alcançado. O dia 5 de agosto marcou o último registro público das vítimas: uma câmera de segurança de uma panificadora em Icaraíma os flagrou pela manhã. Por volta das 10h26, eles retornaram a Vila Rica, mas não encontraram os Buscariollo. Mais tarde, às 12h04, os quatro homens fizeram uma nova tentativa, utilizando uma caminhonete Fiat Toro. A investigação apurou que as mortes ocorreram por volta das 12h30, assim que chegaram à propriedade rural objeto da dívida, configurando uma emboscada premeditada.
Os detalhes da execução em emboscada
As vítimas foram mortas instantaneamente em uma emboscada. Informações do inquérito indicam que os disparos começaram quando os homens ainda estavam dentro do veículo, logo ao chegar ao local. Pelo menos cinco armas de fogo de diversos calibres foram utilizadas, com tiros deflagrados de três pontos distintos, atingindo o veículo na frente, na traseira e pelo lado esquerdo. Os ferimentos, principalmente na cabeça e no tórax, indicam que a intenção era matar de forma imediata, descartando a possibilidade de sequestro ou tortura prévia. Após a execução, os corpos foram levados, ainda dentro do próprio carro, até uma cova onde foram enterrados. O veículo, uma Fiat Toro, foi posteriormente levado a um bunker e também sepultado. Fragmentos do veículo encontrados junto aos corpos reforçam a tese de morte instantânea seguida de rápido sepultamento. Laudos de necropsia revelaram que Robishley foi atingido por sete tiros, incluindo um na cabeça; Diego, por nove disparos, com um na cabeça e seis no tórax; Rafael, por seis tiros, sendo três na cabeça; e Alencar, por um tiro na cabeça. A análise do solo revelou que os corpos sofreram saponificação, um processo químico que os preservou, devido às características do terreno onde foram enterrados.
Investigação abrangente e seus complexos desdobramentos
A complexidade do caso se aprofunda com os desdobramentos da investigação. Os principais suspeitos, Antonio Buscariollo e Paulo Ricardo Costa Buscariollo, estão foragidos desde 9 de agosto, após terem comparecido à delegacia e negado envolvimento direto com a dívida. Mandados de prisão temporária foram expedidos contra eles. Antonio possui antecedente criminal por posse ilegal de arma de fogo, enquanto Paulo não tem passagens pela polícia. A família Buscariollo, incluindo outros membros, também desapareceu, e está sob investigação como parte de uma rede de possíveis colaboradores.
A busca pelos corpos e o veículo desaparecido
A localização do carro das vítimas, uma Fiat Toro, foi um marco importante na investigação. O veículo foi encontrado em 12 de setembro, enterrado em um bunker em uma mata fechada na área rural de Icaraíma, a nove quilômetros da propriedade dos Buscariollo. A descoberta veio após o pai de uma das vítimas receber uma carta anônima e um informante auxiliar nas buscas. O carro apresentava vestígios de sangue e marcas de disparos. Os corpos das quatro vítimas foram encontrados na noite de 18 de setembro, enterrados em uma vala coberta por plantas, a 650 metros do local onde a picape havia sido desenterrada. A identificação inicial foi auxiliada pelas roupas que vestiam e confirmada por exames de papiloscopia.
A defesa dos suspeitos foragidos e a investigação de policiais civis
A defesa de Antonio e Paulo Buscariollo alega que a autoria dos homicídios ainda não foi elucidada e que a fuga dos suspeitos foi crucial para que a investigação tomasse corpo, evitando que eles se tornassem “bodes expiatórios”. O advogado representante dos Buscariollo argumenta que a ausência dos clientes permitiu que as autoridades explorassem outras vertentes investigativas, buscando os verdadeiros culpados. Além disso, a defesa apontou divergências sobre o valor da dívida, com Alencar mencionando R$ 129 mil, os Buscariollo apresentando notas promissórias de R$ 255 mil para fins fiscais, e os cobradores afirmando às famílias que o valor a ser cobrado era de R$ 1 milhão. Essa discrepância levanta a possibilidade de outros devedores ou um engano substancial sobre os montantes envolvidos, sugerindo que as vítimas poderiam estar buscando um valor ainda maior.
Um desdobramento alarmante ocorreu em 9 de janeiro, quando dois policiais civis de Icaraíma foram alvos de mandados de busca e apreensão. Eles são suspeitos de passar informações que teriam facilitado a fuga dos Buscariollo ou a destruição de vestígios, prejudicando a investigação. A Corregedoria das autoridades investigativas apura a situação, e os agentes podem responder por favorecimento pessoal e corrupção, além de enfrentarem processos administrativos que podem levar à demissão. Eles foram realocados para outras delegacias enquanto a investigação prossegue, indicando uma séria falha na conduta policial.
Conclusão
O assassinato dos quatro homens que foram ao Paraná cobrar uma dívida revela uma intrincada trama de violência, desconfianças sobre envolvimento com o crime organizado e a complexidade de uma investigação que ainda busca respostas definitivas. Desde os áudios que prenunciavam o perigo, passando pela brutal emboscada e o sepultamento dos corpos e do veículo, até os desdobramentos recentes envolvendo agentes da lei, o caso de Icaraíma continua a chocar e a levantar importantes questionamentos sobre a segurança e a impunidade. As autoridades permanecem empenhadas em elucidar completamente o crime, capturar os foragidos e identificar todos os responsáveis, enquanto a sociedade aguarda por justiça para as vítimas e suas famílias e pela completa responsabilização dos envolvidos.
FAQ
1. Quem são as vítimas do caso Icaraíma?
As vítimas são Robishley Hirnani de Oliveira, Rafael Juliano Marascalchi, Diego Henrique Afonso, todos de São José do Rio Preto (SP), e Alencar Gonçalves de Souza, morador de Icaraíma (PR). Alencar foi quem contratou os serviços de cobrança dos demais.
2. Qual foi a motivação principal para os assassinatos?
A motivação principal foi a cobrança de uma dívida de R$ 255 mil, referente à venda de uma propriedade rural por Alencar à família Buscariollo. Essa dívida, dividida em notas promissórias, nunca foi paga, levando os homens a tentar a cobrança em pessoa.
3. Quem são os principais suspeitos e qual a situação deles atualmente?
Os principais suspeitos são Antonio Buscariollo, de 66 anos, e seu filho, Paulo Ricardo Costa Buscariollo, de 22 anos. Ambos estão foragidos desde 9 de agosto, quando mandados de prisão temporária foram expedidos contra eles.
4. Há envolvimento de policiais no caso?
Sim, dois policiais civis de Icaraíma são investigados por suspeita de facilitar a fuga dos Buscariollo ou destruir vestígios que pudessem prejudicar a investigação. Eles foram alvo de mandados de busca e apreensão e estão sendo apurados pela Corregedoria.
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Fonte: https://g1.globo.com