Os mais recentes resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) de 2025, divulgados nesta terça-feira (8) pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), revelam um cenário agridoce para a educação brasileira. Embora o desempenho dos estudantes ainda se mantenha significativamente abaixo da média dos países desenvolvidos, o estudo aponta uma notável redução dessa diferença ao longo das últimas duas décadas. Este avanço sinaliza um progresso gradual, mas ressalta a necessidade contínua de investimentos e políticas educacionais eficazes para superar os obstáculos remanescentes.
PISA 2025: Metodologia e Abrangência da Avaliação
O PISA, aplicado trienalmente pela OCDE, é uma avaliação global que mede os conhecimentos de estudantes de 15 anos em matemática, leitura e ciências. Para a edição de 2025, o programa envolveu 760 mil alunos de 91 países e economias. No Brasil, a avaliação foi administrada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), alcançando 30.140 estudantes, majoritariamente (72,4%) de escolas da rede estadual localizadas em áreas urbanas. As provas, realizadas entre abril e maio de 2025, tiveram como foco principal o letramento em ciências, domínio que viu a nota brasileira evoluir de 403 para 409 pontos em comparação com o ciclo anterior de 2022.
Desempenho Atual: Estabilidade Abaixo da Média da OCDE
Apesar dos sinais de melhora histórica, o Brasil permanece no grupo de países com desempenho abaixo da média da OCDE nas três disciplinas avaliadas em 2025. Os estudantes brasileiros alcançaram 408 pontos em leitura, 377 em matemática e 409 em ciências. Em contraste, a média dos 23 países da OCDE foi de 466 em leitura, 469 em matemática e 486 em ciências. Essa diferença, que se manteve estável em relação aos resultados de 2022, traduz-se em um atraso educacional significativo; em matemática, por exemplo, o Brasil está cerca de 4,6 anos escolares atrás da média dos membros da OCDE, considerando que cada 20 pontos equivalem a um ano.
A Evolução Histórica: Uma Lacuna em Contração
O aspecto mais encorajador dos resultados de 2025 reside na comparação de longo prazo. Analisando os dados entre 2006 e 2025, a distância de desempenho do Brasil em relação à média da OCDE diminuiu substancialmente. Em leitura, a diferença foi reduzida de 102 para 58 pontos (uma queda de 44 pontos). Em matemática, a lacuna encolheu de 131 para 92 pontos (39 pontos a menos). Já em ciências, a redução foi de 113 para 77 pontos (36 pontos a menos). Este progresso gradual reflete um esforço contínuo na política educacional brasileira ao longo de quase duas décadas.
Recuperação Pós-Pandemia: Um Olhar Sobre a Resiliência
A edição de 2025 do PISA também oferece insights sobre a recuperação educacional após a pandemia de COVID-19. O Brasil demonstrou uma recuperação mais robusta do que a média da OCDE nesse período. Entre 2018 e 2025, o país não só recuperou, mas superou o desempenho pré-pandemia em ciências. Além disso, registrou perdas menores em leitura e matemática em comparação com a média dos países da OCDE, indicando uma resiliência notável do sistema educacional brasileiro frente aos desafios impostos pela crise sanitária.
O Mundo Digital: Novas Habilidades e Desafios
Como é de praxe em cada ciclo, o PISA 2025 introduziu um novo domínio de avaliação: 'Aprendizagem no Mundo Digital'. Essa dimensão aborda a Resolução de Problemas por meio de Ferramentas Computacionais (RPFC) e os Processos de Aprendizagem Autorregulada. Nos resultados de RPFC, o Brasil obteve 406 pontos, ficando abaixo da média da OCDE, que foi de 500. Entre 19 países selecionados, a Coreia do Sul liderou com 538 pontos, enquanto o Paraguai ficou na lanterna com 352. Os dados referentes aos Processos de Aprendizagem Autorregulada serão disponibilizados em 2027, fornecendo uma compreensão mais completa das habilidades digitais dos estudantes.
Políticas de Uso de Celulares nas Escolas
Um ponto de destaque do questionário contextual do PISA 2025 é o aumento expressivo das restrições ao uso de celulares em sala de aula no Brasil. Atualmente, 81% dos estudantes brasileiros avaliados frequentam escolas com políticas de restrição a esses dispositivos, um salto considerável em relação aos 37% registrados em 2022. Esta proporção supera amplamente a média da OCDE, que é de 49%. O Ministério da Educação (MEC) atribui esse percentual à implementação da Lei nº 15.100/2025, que estabeleceu regras para o uso de celulares na educação básica em todo o país, alinhando-se a evidências de que essas restrições reduzem as distrações digitais e melhoram o desempenho.
Curiosidade e Perseverança dos Estudantes
Os questionários de contexto do PISA 2025 também capturaram aspectos sobre o engajamento e a atitude dos alunos. Cerca de 72% dos estudantes brasileiros afirmaram ter interesse por diversos assuntos, enquanto 59% declararam se esforçar mais diante de desafios. Esses dados fornecem uma perspectiva valiosa sobre a motivação intrínseca e a resiliência dos jovens frente às demandas acadêmicas.
Conclusão: Desafios Persistentes e Oportunidades de Avanço
Os resultados do PISA 2025 delineiam um panorama complexo para a educação brasileira. Embora os dados de 2025 mostrem estabilidade no desempenho e a persistência de uma diferença em relação aos países desenvolvidos, a análise de longo prazo aponta para um progresso inegável na redução dessa lacuna educacional nas últimas duas décadas. A resiliência demonstrada na recuperação pós-pandemia e a rápida adoção de políticas de restrição de celulares indicam uma capacidade de adaptação e resposta do sistema. O desafio agora é transformar essa redução da diferença em um avanço consistente que eleve o Brasil à média dos países da OCDE, exigindo a continuidade de políticas públicas eficazes e o foco na qualidade do ensino em todas as suas dimensões.