O Salto das Orquídeas, um reconhecido complexo de cachoeiras e quedas d'água situado em Sapopema, na região norte do Paraná, tornou-se o epicentro de uma tragédia que comoveu a comunidade e os entusiastas do ecoturismo. A fotógrafa Ana Paula Silveira Cardoso, de 29 anos, residente de Londrina, perdeu a vida após um acidente em uma trilha, escorregando em uma correnteza enquanto tentava atravessar um trecho do rio Lajeado Liso. Seu corpo foi localizado cinco dias após o desaparecimento, confirmando o desfecho mais temido após dias de intensas buscas.
O incidente resultou na interrupção imediata das atividades no local, primeiramente para facilitar o trabalho das equipes de resgate. Posteriormente, a administração do ponto turístico decidiu manter o Salto das Orquídeas fechado por tempo indeterminado, em um gesto de luto e respeito à memória de Ana Paula e seus familiares. A fatalidade levanta questões importantes sobre os riscos inerentes às atividades de aventura em ambientes naturais, mesmo em destinos estruturados para o turismo.
Salto das Orquídeas: Atrações, Estrutura e as Condições no Dia da Tragédia
Amplamente procurado para o ecoturismo e a prática de esportes de aventura, o Salto das Orquídeas dispõe de uma infraestrutura que inclui opções de hospedagem, área de camping, restaurante e cozinha comunitária. Sua maior atração reside nas corredeiras, cachoeiras e um conjunto de três quedas d'água, com destaque para a mais alta, que atinge 45 metros e se localiza em meio à densa vegetação, no curso do rio Lajeado Liso. Era precisamente a esse ponto de imensa beleza natural que a fotógrafa e sua amiga se dirigiam, em busca de um mirante panorâmico.
No entanto, a beleza cênica do local foi ofuscada por condições ambientais adversas no dia do acidente. As autoridades estimam que o nível da água do rio Lajeado Liso estava aproximadamente 40 centímetros acima do seu volume normal, fator que intensificou significativamente a força da correnteza. Essa elevação do nível do rio se configurou como um elemento crítico para o desencadeamento da sequência de eventos que culminaram na fatalidade.
O Acidente: A Dinâmica do Desaparecimento de Ana Paula
No sábado, 25 de novembro, Ana Paula Silveira Cardoso e sua amiga, Ana Carolyne Camilo, seguiam a trilha do Salto das Orquídeas. Ambas planejavam atravessar o rio com o auxílio de cordas. Contudo, durante a travessia, ao se soltarem de uma corda, Ana Paula escorregou e foi prontamente arrastada pela forte correnteza, desaparecendo nas águas. Ana Carolyne, que também se desequilibrou, conseguiu reagir e se salvar, evitando ser levada pelo rio.
As informações iniciais, colhidas pelo major Renan Bortolassi, que integrou as equipes de busca, indicavam a possibilidade de Ana Paula ter caído de uma das cachoeiras, dada a velocidade e volume da água. Este cenário de rápido e inesperado desaparecimento lançou um clima de angústia e urgência sobre toda a operação de resgate que se iniciou logo após o alerta.
As Buscas e a Dolorosa Confirmação: A Descoberta do Corpo
A operação de busca por Ana Paula Silveira Cardoso se estendeu por cinco dias, mobilizando equipes especializadas do Corpo de Bombeiros e o uso de recursos tecnológicos avançados. Foi na manhã de quinta-feira, 30 de novembro, por volta das 7h10, que um drone, operado pelo capitão Jackson Alexandre Machado, conseguiu localizar o corpo da fotógrafa. A descoberta se deu a uma distância de 123 metros da queda da maior cachoeira do complexo, um testemunho da força com que a correnteza a arrastou rio abaixo.
O coronel Rafael Lorenzetto, do Corpo de Bombeiros, confirmou o achado, pondo fim a um período de incerteza e confirmando a trágica perda. Este desfecho ressalta a complexidade e os perigos enfrentados pelas equipes de resgate em terrenos acidentados e sob as condições adversas do rio, que dificultaram sobremaneira as buscas desde o primeiro momento.
A Luta Pela Vida: O Relato da Sobrevivente Ana Carolyne Camilo
Ana Carolyne Camilo, a companheira de trilha de Ana Paula, vivenciou momentos de extremo perigo e demonstrou notável resiliência. Após também se desequilibrar e cair na água, ela conseguiu se salvar ao agarrar-se a pedras que não estavam submersas. De acordo com o relato de seu pai, Valdir Camilo, a jovem foi arrastada por cerca de 500 metros desde o ponto da queda e permaneceu sozinha na mata, entre as 15h de sábado e as 9h de domingo, enfrentando o isolamento e as condições climáticas.
Seu resgate ocorreu quando um funcionário do Salto das Orquídeas, que realizava uma verificação de rotina do nível do rio, a encontrou. Com o apoio de dois policiais militares, Ana Carolyne foi socorrida e hospitalizada com uma fratura na coluna. A família informou que ela recebeu alta hospitalar na quarta-feira, 29, e agora se recupera da traumática experiência e das lesões físicas.
Investigação Policial: Causa da Morte e Andamento do Inquérito
O laudo da Polícia Científica, acessado pelo delegado Thiago Luiz dos Santos, confirmou que a causa da morte de Ana Paula Silveira Cardoso foi asfixia mecânica por afogamento. O delegado, que coordena a investigação do caso, esclareceu que o relatório não apontou outras causas para o óbito, e a linha investigativa principal permanece como acidente. Ele aguarda a conclusão de exames complementares que serão anexados à apuração.
Para finalizar o inquérito, o delegado informou que ainda irá proceder com a oitiva do proprietário da pousada e de outros turistas que estavam no Salto das Orquídeas no dia da tragédia. Essas informações adicionais são consideradas cruciais para complementar o panorama das circunstâncias que levaram ao lamentável incidente, reforçando a conclusão preliminar de que se tratou de um acidente.
A tragédia no Salto das Orquídeas serve como um sombrio lembrete dos riscos intrínsecos às atividades de aventura e ecoturismo, mesmo em locais que contam com certa infraestrutura. A perda de Ana Paula Silveira Cardoso e a experiência traumatizante de sua amiga Ana Carolyne Camilo sublinham a importância da extrema cautela, da avaliação rigorosa das condições climáticas e do nível dos rios, e do respeito incondicional aos limites impostos pela natureza. O fechamento do complexo, em sinal de luto, incita uma reflexão necessária sobre a segurança no ecoturismo e a responsabilidade compartilhada entre operadores e visitantes diante da imponente beleza e dos perigos potenciais dos cenários naturais.
Fonte: https://g1.globo.com