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Cultura de ‘Não Reportar’: Áudio Inédito Expõe Práticas na Voepass e Reforça Conclusões do Cenipa

G1

A segurança aérea no Brasil volta a ser pauta de sérias discussões após a divulgação de um áudio inédito que expõe uma preocupante rotina interna na Voepass Linhas Aéreas. A gravação, obtida pela EPTV, afiliada da TV Globo, revela um funcionário de manutenção orientando um piloto a não registrar uma falha técnica, com o intuito de evitar a paralisação da aeronave. Esta revelação, que ressoa diretamente com as conclusões da investigação sobre a tragédia aérea de Vinhedo, em 2024, lança luz sobre uma cultura organizacional que, segundo as autoridades, normalizava desvios operacionais em detrimento dos protocolos de segurança.

A Revelação de uma Prática Questionável

O áudio em questão flagra um técnico de manutenção solicitando a um piloto que omita o registro de um problema detectado na “PACK” – um componente vital do sistema de ar-condicionado e pressurização da aeronave. A justificativa explícita era evitar que o avião ficasse em condição AOG (Aircraft on Ground), ou seja, impedido de voar por necessidade de manutenção. O piloto que recebeu a mensagem, mantendo o anonimato, confirmou que o incidente ocorreu poucos meses após o desastre de Vinhedo e que esse tipo de solicitação era comum na companhia. Tal prática, se confirmada em larga escala, sugere uma priorização da continuidade das operações sobre a segurança e a conformidade regulatória.

"Normalização de Desvios": A Cultura sob Escrutínio do Cenipa

Esta nova evidência converge de forma alarmante com as conclusões do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa). Durante a apresentação do relatório final sobre a queda do avião da Voepass em Vinhedo, o tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, investigador do Cenipa, já havia apontado a existência de uma “cultura de normalização de desvios” nas condutas operacionais da empresa. A gravação reforça a percepção de que, especialmente quando se tratava de itens recém-saídos da manutenção ou quando prazos para correção de falhas não eram cumpridos, havia uma pressão interna para que os problemas não fossem formalmente registrados. Profissionais que insistiam em reportar as panes, segundo relatos de ex-funcionários, podiam ser vistos com resistência dentro da organização. O Cenipa destacou ainda que a empresa apresentava dificuldades no fluxo de informações relacionadas à manutenção e registros incompletos de falhas, evidenciando uma lacuna na gestão da segurança.

Precedentes Alarmantes: Falhas Omitidas Antes da Tragédia de Vinhedo

A gravidade da situação é amplificada por revelações anteriores que sugerem um padrão. Quase um ano antes da divulgação do relatório final do Cenipa, um ex-funcionário da Voepass já havia denunciado, no documentário “81 Segundos” (produzido pelo g1 em parceria com a EPTV), que uma falha específica no sistema de degelo do ATR acidentado em Vinhedo teria sido omitida do diário de bordo horas antes do voo fatal. Este trabalhador afirmou ter testemunhado a última manutenção da aeronave no hangar da empresa, indicando que a prática de não registrar problemas críticos poderia ter sido um fator contribuinte para a catástrofe que ceifou 62 vidas. A recorrência de tais alegações pinta um quadro preocupante sobre a aderência aos protocolos de segurança na companhia.

O Trágico Cenário do Acidente de Vinhedo

O acidente aéreo que chocou o país ocorreu em 9 de agosto de 2024, quando o ATR 72-500, matrícula PS-VPB, que realizava o voo 2283 de Cascavel (PR) para o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP), precipitou-se no quintal de uma residência em um condomínio de Vinhedo, interior paulista. A tragédia resultou na morte de todas as 62 pessoas a bordo – 58 passageiros e quatro tripulantes –, marcando o acidente mais grave da aviação brasileira desde 2007. Este episódio traumático é o pano de fundo para as atuais discussões sobre a cultura de segurança na Voepass, elevando a urgência e a seriedade das denúncias e das conclusões do Cenipa.

A Posição da Voepass e os Desafios da Segurança Operacional

Em resposta ao recente áudio, a Voepass declarou, por meio de nota oficial, não ter tido acesso nem conhecimento do conteúdo da gravação. A empresa reiterou que possui um sistema formal de comunicação para identificação de falhas em equipamentos, e que suas equipes são rigorosamente orientadas a seguir tais procedimentos. No contexto do acidente de 2024, a companhia expressou solidariedade às famílias das vítimas, classificando o evento como o mais difícil de sua história e afirmando que, em mais de três décadas de operação, nunca havia enfrentado uma situação semelhante. A Voepass ressaltou ainda que sempre adotou padrões de segurança internacionais, possuindo inclusive a certificação IOSA desde 2012, um selo de excelência operacional concedido a empresas auditadas pela IATA. Contudo, as denúncias de ex-funcionários e as próprias conclusões do Cenipa sobre a “normalização de desvios” colocam em xeque a efetividade dessas políticas e a vigilância sobre sua aplicação prática no dia a dia.

As evidências emergentes, desde o áudio que instrui a omissão de panes até as conclusões do Cenipa sobre uma “cultura de normalização de desvios” e relatos anteriores de falhas não reportadas, traçam um cenário complexo e preocupante para a segurança operacional na Voepass. Enquanto a empresa reafirma seu compromisso com a segurança e a conformidade, a persistência dessas alegações, especialmente após um acidente de grande porte, exige uma investigação aprofundada e medidas corretivas rigorosas. A aviação depende da máxima transparência e adesão incondicional aos protocolos de segurança para garantir a confiança dos passageiros e a integridade de suas operações, tornando indispensável que todas as denúncias sejam minuciosamente apuradas e que a cultura de segurança seja irrestritamente priorizada em todos os níveis da organização.

Fonte: https://g1.globo.com

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