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Violência nas Escolas: Quase 72% dos Gestores Lutam Contra Bullying, Racismo e Capacitismo, Revela Pesquisa

© Tânia Rêgo/Agência Brasil

A violência no ambiente educacional emergiu como um dos maiores desafios para a gestão das escolas públicas brasileiras. Uma pesquisa recente, conduzida pela Fundação Carlos Chagas (FCC) em parceria com o Ministério da Educação (MEC), revelou que uma proporção alarmante de 71,7% dos gestores escolares enfrenta consideráveis dificuldades para dialogar e implementar ações de enfrentamento a diversas formas de violência, incluindo bullying, racismo e capacitismo (preconceito contra pessoas com deficiência). Este panorama preocupante, que abrange 136 gestores de 105 instituições de ensino públicas, servirá de base para o novo "Guia de Clima Escolar Positivo para Equipes Gestoras", uma iniciativa federal cujo lançamento está agendado para esta quinta-feira (7) no canal do YouTube do MEC.

A Complexidade do Combate à Violência e Sua Naturalização

Lidar com a violência dentro das escolas é uma questão de grande complexidade, exigindo preparo, apoio e estratégias bem definidas, conforme salientado por Adriano Moro, pesquisador do Departamento de Pesquisas Educacionais da FCC e coordenador do estudo. Uma das maiores barreiras identificadas é a naturalização de atos agressivos, frequentemente desqualificados como "brincadeiras" por parte de adultos na comunidade escolar. Essa interpretação minimiza a gravidade das situações, podendo levar à omissão e privar os estudantes do apoio e intervenção necessários. O pesquisador também contextualiza que muitas escolas estão inseridas em comunidades marcadas pela violência externa, o que adiciona uma camada de complexidade aos desafios internos. A dificuldade em envolver as famílias e a comunidade agrava ainda mais a situação, deixando a escola com a pesada tarefa de gerenciar esses problemas de forma isolada.

Identificando as Múltiplas Faces da Violência Além do Bullying

Adriano Moro aponta ainda outra dificuldade: o uso indiscriminado do termo "bullying". Embora o bullying seja uma forma de violência séria e multifacetada, sua aplicação genérica pode, paradoxalmente, camuflar problemas específicos e igualmente graves, como racismo, capacitismo, xenofobia e violência de gênero. O bullying, que se manifesta por meio de agressões físicas ou psicológicas repetidas – como xingamentos, apelidos pejorativos e outras formas de intimidação ou discriminação – é um fenômeno com suas próprias especificidades. Ao não nomear corretamente a violência vivenciada, a escola perde a oportunidade de desenvolver abordagens e intervenções mais precisas e eficazes para cada tipo de agressão, o que impede uma atuação mais preventiva e intencional.

O Poder do Clima Escolar Positivo na Prevenção

Para os responsáveis pela pesquisa, um clima escolar positivo é um fator crucial para enfrentar a violência de forma eficaz. Um ambiente de confiança, respeito e escuta ativa entre estudantes e adultos permite que a escola transite de uma postura meramente reativa para uma atuação proativa, intencional e colaborativa. Quando essas condições são estabelecidas, torna-se mais fácil identificar problemas em seu estágio inicial, nomear corretamente as diferentes formas de violência e agir com maior responsabilidade e justiça, promovendo um ambiente mais seguro e acolhedor para todos.

Desafios Adicionais na Integração e Pertencimento

A pesquisa também explorou outras facetas do clima escolar, revelando desafios significativos no relacionamento entre os diferentes atores da comunidade educacional. Cerca de 67,9% dos gestores entrevistados relatam dificuldades na aproximação entre escola, famílias e comunidade. A construção de relacionamentos saudáveis entre os próprios estudantes é um entrave para 64,1% dos gestores. Além disso, 60,3% mencionam dificuldades em desenvolver o sentimento de pertencimento dos alunos, e o mesmo percentual reconhece problemas na relação entre estudantes e professores. Quase metade dos gestores (49%) aponta desafios relacionados à promoção do sentimento de segurança entre os alunos, indicando que a questão da violência está interligada a uma série de outros fatores sociais e emocionais no contexto escolar.

A Necessidade de Diagnóstico e o Impacto da Sobrecarga da Gestão

No que tange à organização interna das unidades de ensino para promover um ambiente positivo, o levantamento apontou que mais da metade delas (54,8%) nunca realizou um diagnóstico estruturado do clima escolar. Os pesquisadores ressaltam que essa é uma "etapa essencial para orientar políticas de convivência e aprendizagem" eficazes. Embora mais de dois terços (67,6%) das unidades de ensino contem com uma equipe responsável por ações de melhoria do clima escolar, nas restantes 32,4%, essas ações ficam a cargo direto da gestão. Adriano Moro destaca que essa realidade frequentemente resulta em sobrecarga para os profissionais, que acabam atuando mais na resolução de problemas imediatos do que na prevenção planejada, o que compromete a eficácia das estratégias de longo prazo.

Clima Escolar: Um Pilar Fundamental para a Aprendizagem de Qualidade

O coordenador da pesquisa, Adriano Moro, enfatiza a "muito forte" relação entre um clima escolar positivo e o desempenho pedagógico dos estudantes. Ele argumenta que o ambiente nos colégios influencia diretamente tanto o bem-estar dos indivíduos quanto todo o processo de ensinar e aprender. Para que a aprendizagem ocorra com qualidade e equidade, é fundamental que os estudantes se sintam acolhidos, respeitados e seguros. Em um ambiente onde os alunos não temem errar, eles são capazes de aprender melhor e desenvolver plenamente suas habilidades, destacando a importância de um clima escolar positivo como um alicerce para o sucesso educacional.

O panorama traçado pela pesquisa da FCC e do MEC sublinha a urgência de uma abordagem mais estruturada e abrangente para o enfrentamento da violência escolar. A alta porcentagem de gestores que relatam dificuldades em dialogar e agir contra preconceitos como bullying, racismo e capacitismo, juntamente com os desafios na interação entre escola, famílias e estudantes, revela a complexidade do problema. A ausência de diagnósticos estruturados e a sobrecarga da gestão impedem a transição de uma postura reativa para uma preventiva e colaborativa. No entanto, a correlação entre um clima escolar positivo e a melhoria do desempenho pedagógico oferece um caminho claro. O lançamento do Guia de Clima Escolar Positivo para Equipes Gestoras representa um passo crucial para capacitar as escolas a criar ambientes mais seguros, acolhedores e, consequentemente, mais propícios à aprendizagem e ao desenvolvimento integral dos estudantes, transformando as dificuldades em oportunidades para uma educação mais equitativa e humana.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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